Botulismo familiar
Anderson Pires*
Quando criança, nos anos setenta e oitenta, escutei algumas histórias sobre pessoas que morreram em decorrência do consumo de enlatados. Nessa época, algumas latinhas ficaram famosas: sardinhas, kitutes, feijoadas e as desejadas salsichas tipo Viena da Swift. Desde cedo, aprendíamos que as latas não poderiam estar amassadas ou com pontos de ferrugem pelo perigo em contrair o botulismo.
Para quem não sabe, botulismo é uma intoxicação neurológica rara e grave, causada pela toxina da bactéria clostridium botulinum, que ataca os nervos e causa paralisia muscular progressiva, podendo levar à insuficiência respiratória e morte. As famosas latinhas eram um ambiente propício para o desenvolvimento da bactéria, já que são anaerobias.
Os bonitos rótulos com artes bem elaboradas e fotos apetitosas, muitas vezes, mascaravam o estado de putrefação dos alimentos e a intoxicação pela bactéria que poderia levar a morte. Os produtos em conserva sempre prezaram pela imagem atraente, com aparência íntegra e adequada a todos os padrões, inclusive morais. Afinal, mais importante é parecer do que ser.
Chegamos ao carnaval de 2026, a escola de samba Acadêmicos de Niterói apresenta um enredo em homenagem ao presidente Lula, recheado de críticas a Bolsonaro e seus seguidores. Em uma de suas alas desfilou a Família em Conserva. Uma criativa analogia com as comidas enlatadas, que apesar da aparência saudável, podem estar impregnadas de mazelas e até provocar a morte.
A imagem da família enlatada gerou críticas e ataques recheados de ódio pelos conservadores, com interpretações de cunho eminentemente político, com o intuito de desviar o foco sobre o questionamento a falsa moral, além de criar um discurso em defesa da instituição família como expressão religiosa.
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Para os membros da Família em Conserva, aquela que seus membros pregam mandamentos rígidos, a alegoria soou como uma agressão, um ataque direto a evangélicos e católicos fervorosos, que propagam fotos singelas com suas famílias perfeitas.
Para esses, mais grave que crimes e práticas abusivas contrárias aos seus próprios preconceitos, é o fato de uma escola de samba escancarar a hipocrisia familiar, pautada, principalmente, na moral cristã. Fazendo um paralelo com o alimento enlatado, a culpa seria do abridor de latas, que revelou a podridão dentro da embalagem de rótulo bonito.
A Família em Conserva abriga o pai religioso que tem na vida paralela amantes. É a mesma que condena a homossexualidade e trata como doente o filho gay. Oprime tanto, que alguns desistem de viver. Mesmo assim, seguem justificando a violência como uma vontade divina. São os hipócritas que usam o nome de Jesus para tudo que é conveniente, mas espancam a mulher e estupram a filha.
O ódio expressado pelos que se sentiram agredidos com o desfile da escola de samba tem origem na incoerência, na farsa que vivem. Fazem exacerbação da instituição família, como se escondesse todos os pecados que cometem. Imagino a insegurança de quem vive pregando moralismo, mas treme quando fareja o risco que suas orgias sejam reveladas.
O que o conservador mais tem medo é do julgamento. Já que paira na mente deles a possibilidade de condenação pós-morte. Imagine o pânico de terem seus pecados e ilícitos revelados em vida. Se abrirem a lata, irá feder. Os podres não poderão ser ofuscados por fotos em família e frases bíblicas. Como costumo dizer, a bíblia sempre terá um versículo para autoabsolvição dos conservadores ou a condenação de quem lhes for conveniente exterminar. Para finalizar, farei uso da mesma prática:
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de podridão.” Mateus 23,27
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