Poema mal dito e o adeus em versos livres
eM Verso
Vai piorar muito antes de melhorar
mas a vida tem dessas
retratos rasgados, lembranças jogadas fora
Um poema esquecido e um amontoado de memórias mal resolvidas
Queria me lembrar daquele poema. Mal dito
Encarando a dura realidade, às vezes cara à cara
em tantas outras com a surpresa no olhar, engrandecido, envaidecido,
orgulhoso e envergonhado, mas sempre ouvindo fundo o coração.
Refletido no céu, amedrontado, lembranças de um carinho confortável
de uma amizade onde até as verdades
podiam ser recitadas diante do gigante guerreiro
É que eu pareço ACDC, mas sou mais Pink Floyd enquanto gritam aqui fora
O conto nunca terminado, o romance inacabado e o maldito do poema esquecido
Li, reli, recitei tantas vezes, mas o perdi na memória.
Lembro da igrejinha, branquíssima, num dia quente de céu azul como água do mar
do caminho pra casa com as ondas de bandeirolas amarelas, quase prontas
para enfeitar a vista e depois o chão
Já no meio da noite, o orgulhoso céu estrela são substituídos pelas nuvens
passei a enxergar também outras vistas e entender que também eram lindas
Lembrei das lentes sujas e da saudade de apostar com cartas
Esqueci do maldito poema
Lembro que sorri, corei as bochechas e do suador que me deu quando me vi
derretido. Me empolguei
Me arrisquei, eu sei. Consciente do risco de uma batida,
mas fiel ao coração, me lembrei do tal poema dito. Adorava aquela emoção
das trocas obscenas, das noites de cinema, do toque sem malícia, do beijo pra carinho,
no cantinho escondidinho. Me vi enciumado, envergonhado e apaixonado
O poema mal dito falava de amor. Foi engavetado, apagado, reescrito, amassado
Mas, inquieto como a Lua, de um lado para o outro no céu, e as estrelas,
que correm noite a dentro sem rumo, fui amaldiçoado
Não lembro. Sei o que diz, sei lá como diz. Onde tocou, marcou, doeu
O poema maldito, que nunca foi ouvido, nem lido, nem impresso, riscado ou escrito
não foi sequer imaginado. Mas passou batido, desacreditado
Vesti o guerreiro e fui a luta. Ganhei o mundo, mas perdeu a graça
aí me desmontei, me destruí, me soterrei. E cheguei ao fim
Aí me refiz, tijolo sob tijolo, papel sobre papel, palavra após a outra
e quando vi, cheguei aqui. Nem tão perto do fim, e nem tão longe também
mas não houve adeus, nem há de haver. O tempo passou tão rápido que a Lua deixou o céu
deu lugar às estrelas, mas dessa vez sem nuvens, ficando as formas de gente e bicho
mas afinal, qual a melhor forma de colocar um foguete no céu pra ver as estrelas de perto
e as bordas do mundo, à beira do mar? Fogo e gasolina. Mas o amor quando é sincero, zomba do seu inimigo
Poema maldito
Eu escrevo porque preciso, se não precisasse, aí não viveria mais. Enquanto a vida me
encarar com desafios, dobrarei as cartas apostas. Talvez assim saia finalmente mais algumas páginas
daqueles rabiscos de contos mal ditos. Talvez assim eu aprenda, com o balanço do mar e o ranger da madeira e o barulho das ondas se quebrando….xuaaaa
É hora de dizer a deus
É hora de dizer a deus.
Encaixotei os livros, tirei tudo da tomada, me despedi dos amigos,
joguei fora o que não prestava mais
Era hora do adeus
Separei as roupas para doação, abracei uma última vez e pedi perdão
Respirei fundo e disse adeus, mas não fui
Fechei a janela, mas deixei tudo a mostra. Escrevi uma carta, já que era a hora de dizer adeus
Me lembrei que havia esquecido de tanta coisa que ficou pra trás
Lembrei do tempo que não volta mais e do que nunca mais virá
Eu disse adeus, e desta vez foi pra valer. Vou levar apenas a roupa do corpo
como quem carrega uma mala pesada cheia de memórias
Vou levar um livro, isqueiro, meus escritos e quem sabe, algumas histórias
Uma última vez eu disse adeus. E chorei
Sabia que não diria mais, sabia até que queria mais, mas era hora
Respirei fundo e disse, até breve. Que em uma próxima seja leve, que numa próxima você me leve contigo ao invés de dizer adeus
Mas não houve, adeus
E Deus disse: “que haja luz”
Mas houve escuridão
Ouviu-se o silêncio, um estrondo e de repente um brilho, e tudo ficou tão claro, como um dia depois do outro
No corpo, um terno escuro, gravata prateada, mochila nos ombros
E os cabelos bagunçados
As mãos entrelaçadas uma à outra, como quem está nervoso por um primeiro encontro
Mas houve apenas a quietude, rompido pelo som do adeus
Mundo mundo vasto, mundo. Mais vasto ainda é meu coração
Onde hei de chegar, não alcançarão os passos meus
Mundo, mundo, vasto mundo. Olha só o que me deu
Aperto forte os joelhos contra o peito como quem abraça a saudade
A saudade aperta aperta forte
o peito como quem já de joelhos implora por perdão
Leia também: “O esguio propósito” em Cervantes e Drummond
A terceira margem da poética de Afonso Felix de Sousa/Poesia e Contemplação
O post Poema mal dito e o adeus em versos livres apareceu primeiro em Jornal Opção.
