C de Confessar; confessar não é contar histórias
Ana Kelly Souto
Especial para o Jornal Opção
Chegamos à letra C do abecedário agostiniano e, como costuma acontecer quando se trata de Agostinho, a escolha não se apresentou sem um breve combate interior. O caminho mais imediato parecia conduzir ao C do coração inquieto, que clama por Deus, ou ainda ao da conversão.
No entanto, o coração só se revela quando se confessa, e a confissão só existe quando se converte. Confessar é voltar-se novamente à Verdade que sustenta a vida. Conversão e confissão formam um movimento de retorno e é nele que o coração se transforma. Por isso, elegemos Confissões, termo que dá nome ao livro mais lembrado do bispo de Hipona.
Se Agostinho insiste tanto na confessio é porque, para ele, confessar e converter-se são movimentos inseparáveis. Conversio, “voltar-se para”, designa o gesto interior que abandona as versões convenientes de si para retornar à verdade que sustenta, é uma transformação ontológica do coração. O termo latino conversio, derivado de convertere — voltar-se para, orientar-se novamente — designa o movimento pelo qual o desejo se desprende dos bens mutáveis e retorna à fonte imutável da felicidade. Já confessio, de con-fateri, “dizer com”, “admitir diante de alguém”, indica que confessar não é apenas narrar fatos, mas reconhecer-se à luz da verdade divina. Conversão e confissão, nesse sentido, constituem um único processo: só retorna a Deus quem consente em ser desmascarado por Ele.
Não é por acaso que Agostinho chama sua obra de Confissões. Diferentemente de muitos textos antigos, cujo título foi atribuído posteriormente, este nome foi escolhido pelo próprio autor. Nas Retratações, ele menciona explicitamente “os treze livros das minhas Confissões”, deixando claro que o título não é casual. Escrito por volta do ano 397, quando já tinha mais de quarenta anos e uma fé amadurecida, o livro nasce do desejo de examinar a vida diante de Deus. Confessar, aqui, não significa exclusivamente narrar fatos, revisitar memórias nem cultivar um monólogo voltado para si, mas abrir-se ao divino de modo que o eu não se exalte, e sim se ofereça. O santo filósofo escreve para compreender, purificar e louvar. O título indica, desde o início, que não estamos diante de uma autobiografia comum, mas de um modo específico de filosofar, no qual a própria vida se torna questão pensada à luz de Deus.
Na obra Confissões, o autor transforma a própria vida em questão filosófica, não a partir do eu, mas diante de Deus, reconhece as limitações e as enfermidades, e apresenta-se Àquele que pode curá-las. Essa ideia é expressa no Livro X: “Tu és o médico, eu sou o doente”. A confissão não é um tratamento conduzido pelo eu, mas o consentimento em ser examinado pelo único doutor verdadeiro, pois conhecer-se não basta, é preciso ser curado.
Há, contudo, um equívoco recorrente que precisa ser evitado, ler as Confissões como um exercício de introspecção psicológica é projetar sobre Agostinho uma categoria que lhe é estranha. O movimento que atravessa o livro não parte de um eu que se observa a si mesmo pela própria razão, nem de um sujeito que se toma como ponto de partida seguro. Para o filósofo, o conhecimento de si não é produzido, mas recebido. Confessar é um retorno a si que só se torna possível porque Deus habita “o mais íntimo do íntimo” (Confissões, III, 6, 11).
Ao revisitar a própria história, Agostinho não descobre um sujeito coerente, mas um ser dividido, inquieto, atravessado por desejos contraditórios. Ao afirmar ter se tornado “um grande problema para si mesmo” (Confissões, IV, 4, 9), não formula um drama psicológico, mas uma questão propriamente filosófica. A vida humana só se torna inteligível quando pensada à luz de algo que a ultrapassa. É por isso que confessar não é fixar-se no passado nem organizar uma identidade, mas interrogar a própria existência a partir da pergunta decisiva: onde repousa a felicidade? Desde o início das Confissões, Agostinho deixa claro que se trata de um problema existencial, “Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Confissões, I, 1, 1). A confissão nasce dessa inquietação fundamental, da busca por um lugar onde a vida possa, enfim, encontrar descanso.
Hoje, confissão é uma palavra incômoda. Evoca confessionário, delação, fragilidade exposta e cancelamento iminente. Em uma cultura que trata a identidade como uma marca a ser polida e vendida, confessar soa como gesto imprudente. Falamos de nós o tempo todo em reels, threads, lives e podcasts, mas quase sempre de maneira anestesiada, tudo filtrado, editado e cuidadosamente curado. Talvez seja por isso que a confissão verdadeira assuste. Ela exige algo que a cultura contemporânea evita reconhecer: não nos bastamos e não somos os deuses da própria narrativa.
Talvez seja por isso que confessar continue a nos incomodar tanto. Não porque Agostinho fale de pecados, mas porque ele põe em crise a convicção moderna de que somos capazes de nos explicar sozinhos, em um mundo que confunde identidade com exposição, a confissão aparece como um gesto estranho, que interrompe a narrativa confortável que fazemos de nós mesmos sem testemunhas incomodas. Confissões nos lembram que, antes de nos afirmarmos, precisamos aprender a dizer a verdade — a Deus, sobre nós mesmos, e, quem sabe, uns aos outros.
Hoje repetimos o gesto de contar a própria vida como se ela pudesse ser reduzida a um enredo coerente, traduzível em lições, e a esse procedimento damos o nome de storytelling, prática onipresente nas redes sociais, nas palestras motivacionais e nas biografias que prometem sentido para a existência. Seu efeito mais comum é pacificar a experiência, transformando conflitos e feridas em etapas superadas, o que oferece uma sensação confortável de controle, embora raramente produza transformação. Ao organizar o vivido, o storytelling neutraliza aquilo que poderia nos interpelar e reconcilia cedo demais o que ainda deveria permanecer em aberto.
Ao domesticar a experiência, o storytelling entrega uma versão de nós mesmos supostamente resolvida, mas que muitas vezes apenas oculta grandes tensões, mantendo o sujeito no controle de si, como autor, narrador e editor da própria vida, sem que nada o ultrapasse verdadeiramente, tensões essas que só emergem quando algo maior do que nós mesmos exige uma honestidade radical.
Em Agostinho ocorre o inverso, pois confessar não é organizar a própria vida em uma narrativa convincente, mas permitir que ela seja interrompida por uma verdade que não se deixa domesticar, e quando ele, aos quarenta e três anos, já bispo de Hipona, escreve as Confissões, reconhece-se ainda doente, razão pela qual a confissão não fecha a história, mas abre a ferida, expondo um eu que não se apresenta como personagem compreensível, mas como problema, sendo justamente essa perda de controle, e não a coerência do relato, aquilo que torna possível a transformação.
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