Democracia pode não ser perfeita, mas é vital
Djalba Lima
O nó central de 2026: a desigualdade cria o terreno fértil; a mentira organizada fornece a semente. O resultado é uma democracia formalmente viva, mas socialmente corroída.
Há um erro recorrente, e perigosíssimo, no debate público contemporâneo: confundir democracia com eficiência administrativa, confundir instituições com seus ocupantes, confundir frustração com falência do regime. Essa confusão não é ingênua. Ela alimenta projetos de poder — sinistros projetos de poder.
A democracia não foi concebida para ser confortável. Foi concebida para ser controlável, contestável e corrigível. E talvez seja justamente por isso que ela tenha se tornado saco de pancadas.
Por que a democracia é tão mal compreendida?
Porque ela não promete milagres, entrega processos.
A democracia não garante decisões perfeitas, mas garante a possibilidade de corrigir decisões erradas sem violência. Não assegura líderes virtuosos, mas constrói freios institucionais para conter líderes medíocres, vaidosos ou perigosos.
Como lembrou Winston Churchill, a democracia é o pior dos regimes, exceto todos os outros. A frase, muitas vezes repetida como ironia elegante, é na verdade um diagnóstico brutal: qualquer alternativa “mais eficiente” tende a ser também mais autoritária.
O problema é que, em tempos de ansiedade social, as pessoas passam a exigir da democracia aquilo que ela nunca prometeu: ordem absoluta, decisões rápidas, líderes providenciais. É aí que começa o erro – e o risco.
Instituições não são pessoas (a distinção é vital)
Um deslize ético de um agente público não é, nem pode ser, prova de falência institucional.
Tomemos o exemplo incômodo, mas necessário: escritórios de advocacia controlados por parentes de ministros de tribunais superiores. É ético? Seguramente, não é. Trata-se, sem dúvida, de um terreno movediço, que exige regras claras, transparência e vigilância pública.
Mas transformar esse problema em argumento para deslegitimar o Judiciário como instituição é cometer uma fraude intelectual, muitas vezes deliberada.
Instituições republicanas existem justamente porque as pessoas falham. Quando confundimos a falha individual com a essência institucional, abrimos espaço para o discurso corrosivo do “nada presta”, “tudo está podre”, “é preciso destruir para reconstruir”. A História mostra onde isso termina.
Por isso é correta – e necessária – a posição do presidente do STF, Edson Fachin, ao defender um código de ética claro para ministros. Não se trata de fragilizar o tribunal, mas de fortalecê-lo. Instituições sólidas não temem regras; dependem delas.
Democracia falha na entrega? Sim. Deve-se amaldiçoá-la? Não
A democracia frequentemente falha em entregar serviços públicos com a rapidez e a qualidade que o cidadão espera. Isso é real – e negá-lo só alimenta o cinismo.
Mas aqui está o ponto crucial: não existe regime autoritário que entregue serviços de forma sustentável sem destruir direitos. O que regimes autoritários fazem é substituir políticas públicas por propaganda, e eficiência real por eficiência encenada.
Quando a democracia falha, ela permite cobrança, imprensa livre, alternância de poder, controle institucional. Quando a ditadura falha, ela silencia, prende, tortura e mata.
Devemos criticar a democracia? Sim. Amaldiçoá-la? Jamais.
Como disse Ulysses Guimarães ao promulgar a Constituição de 1988, a Constituição pode não ser perfeita, mas é o instrumento civilizatório que substitui o arbítrio pela lei. Abandoná-la seria regressar à barbárie política.
Democracia não é um serviço prestado apenas por instituições. É uma prática social cotidiana. Ela se enfraquece não apenas quando tribunais falham ou governos erram, mas quando cidadãos desistem de compreender, participar e fiscalizar. O vazio deixado pela apatia quase sempre é ocupado pelo autoritarismo.
Ponto onde a democracia mais falha: desigualdade
Aqui, a crítica é mais profunda, e mais incômoda.
A democracia tem falhado, globalmente, em reduzir desigualdades econômicas e sociais. E essa falha não é periférica: ela corrói o próprio chão cultural da democracia.
O Nobel de Economia James Robinson, coautor de “Por que as Nações Fracassam”, é direto: desigualdade extrema não é apenas um problema econômico; é um problema político existencial.
Sociedades profundamente desiguais têm enorme dificuldade em sustentar valores democráticos no cotidiano.
Como esperar cultura democrática onde parte da população vive sem horizonte, sem mobilidade, sem expectativa de futuro? A frustração vira ressentimento. O ressentimento vira ódio. E o ódio vira voto antidemocrático.
Aqui está o nó central de 2026: a desigualdade cria o terreno fértil; a mentira organizada fornece a semente. O resultado é uma democracia formalmente viva, mas socialmente corroída.
Mentira como método: pós-verdade e erosão democrática
A chamada “pós-verdade” não é um fenômeno novo; é apenas um nome sofisticado para a mentira organizada como estratégia de poder.
O que mudou foi a escala, a velocidade e a sofisticação. Mentiras hoje não buscam convencer; buscam confundir, desgastar, desmoralizar. Não querem substituir uma verdade por outra, mas destruir a própria ideia de verdade.
Quando tudo parece falso, qualquer coisa parece possível.
É nesse terreno que prosperam ataques às instituições, campanhas anticorrupção seletivas, cruzadas morais vazias e salvadores da pátria que prometem “limpar tudo”, desde que ninguém faça questionamentos.
O que os verdadeiros democratas precisam fazer em 2026
Defender a democracia hoje exige mais do que discursos genéricos. Exige trabalho político, cultural e institucional:
1
Separar crítica institucional de discurso destrutivo
Criticar é fortalecer. Deslegitimar é corroer.
2
Defender regras claras, transparência e ética pública, sem cair no moralismo punitivo
Moralismo sem instituições sempre termina em autoritarismo.
3
Colocar a desigualdade no centro do debate democrático
Sem justiça social mínima, não há democracia sustentável.
4
Reagir ativamente à mentira organizada
Não com censura, mas com jornalismo, educação midiática e responsabilidade pública.
5
Reconstruir o sentido de cidadania
Democracia não é espetáculo. É participação, conflito regulado e responsabilidade coletiva.
Por que reagir desde já? Porque 2026 não é apenas um ano eleitoral. É um teste de maturidade democrática.
O desalento é compreensível. O cinismo é tentador. Mas ambos são aliados objetivos do autoritarismo. Democracias não morrem apenas por golpes – morrem também por abandono emocional.
Lição de Weimar: quando a democracia é culpada por falhas que não são só dela
A República de Weimar foi o período democrático da Alemanha entre o fim da Primeira Guerra Mundial e a ascensão de Adolf Hitler ao poder, entre 1919 e 1933. Nasceu de uma ruptura traumática com o Império Alemão derrotado na guerra e se estruturou como uma república parlamentarista dotada de uma Constituição inovadora, que ampliava direitos civis, sociais e políticos para padrões avançados à época.
O período foi marcado por intenso florescimento cultural, artístico e intelectual, especialmente nas grandes cidades alemãs. Ao mesmo tempo, conviveu com instabilidade política crônica, sucessivas crises econômicas, hiperinflação, desemprego em massa e o peso das imposições internacionais do pós-guerra, fatores que alimentaram frustração social, ressentimento nacional e descrédito nas instituições democráticas.
Seu nome vem da cidade de Weimar, onde se reuniu a Assembleia Constituinte responsável por elaborar a nova ordem política. Aquela democracia, ainda frágil e culturalmente pouco enraizada, tornou-se o terreno fértil para a ascensão de forças autoritárias que souberam explorar suas falhas, não para corrigi-las, mas para destruí-la por dentro.
O erro histórico, com consequências trágicas, foi atribuir à democracia a culpa exclusiva por todos os males sociais, como se o regime fosse a causa, e não o espaço onde crises econômicas, desigualdades e ressentimentos vinham à tona.
Foi nesse ambiente que o discurso antissistêmico prosperou. Em nome da ordem, da eficiência e da “vontade do povo”, Adolf Hitler ascendeu ao poder pelas regras do próprio sistema democrático, prometendo corrigir suas falhas – e, logo depois, desmontando-o por dentro.
Weimar não foi destruída por um golpe clássico. Foi esvaziada, desmoralizada e abandonada por parcelas crescentes da sociedade. A lição é incômoda, mas incontornável: quando a democracia é tratada como descartável por não entregar resultados imediatos, o que entra em seu lugar não é eficiência, e sim a violência institucionalizada. No caso, o regime nazista – um Estado construído não para corrigir falhas, mas para eliminar dissensos; não para ampliar direitos, mas para hierarquizar vidas; não para organizar a sociedade, mas para discipliná-la pelo medo.
Weimar nos lembra que o vazio deixado pela descrença democrática nunca permanece por muito tempo. Ele é rapidamente ocupado por regimes que prometem respostas simples – e entregam violência, terror e morte.
Os verdadeiros democratas não romantizam a democracia
Defendem a democracia justamente porque conhecem suas falhas e, sobretudo, porque conhecem o preço de sua ausência.
Sabem que a democracia é lenta, imperfeita, ruidosa. Que frustra expectativas, atrasa decisões, convive com conflitos incômodos e cobra paciência num tempo que exige soluções instantâneas. Mas sabem também que fora dela não há correção possível: há ditadura, censura, perseguição, prisões arbitrárias, tortura e quase sempre o silêncio imposto como política de Estado.
Democratas de verdade não escolhem a democracia por ingenuidade, mas por memória histórica. Porque sabem que regimes autoritários não eliminam problemas: eliminam direitos, eliminam vozes, eliminam verdades ~ e, quando julgam necessário, eliminam pessoas.
Defender a democracia, portanto, não é um gesto de fé cega. É um ato lúcido de responsabilidade histórica.
Em 2026, no Brasil, essa responsabilidade ganha peso especial. Não apenas pelo calendário eleitoral, mas porque a democracia será novamente julgada por aquilo que nunca prometeu (perfeição) e atacada por aquilo que a define (limites ao poder).
Cabe aos democratas não negar suas falhas, mas exigir as correções necessária. Não amaldiçoá-la por não entregar tudo, mas lutar para que entregue mais, especialmente onde mais falhou: na redução das desigualdades, na dignidade material, na inclusão real.
A democracia não pede aplauso. Pede vigilância, coragem cívica e compromisso cotidiano com a verdade.
Porque quando a democracia cai, não cai sozinha. Cai levando consigo o direito de discordar, de escolher, de existir sem medo. E a História, sempre ela, já nos ensinou o que vem depois.
Djalba Lima, jornalista e editor de “Relatos — A Estadão da História”, é colaborador do Jornal Opção.
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