Saiba o que o ditador Getúlio Vargas e Filinto Müller têm a dizer a respeito de Bolsonaro
Salomão Sousa
Em continuidade aos meus estudos sobre o fascismo/totalitarismo contemporâneo, li o livro “O Homem Mais Perigoso do País” (Civilização Brasileira, 406 páginas), do brasilianista R. S. Rose (Robert Sterling Rose). Trata-se de uma biografia política de Felinto Müller, que foi chefe de polícia de Getúlio Vargas de 1933 a 1942, depois senador da ditadura de 1964 e presidente da Arena.
Além da figura contraditória do biografado, destaca-se a pesquisa sobre a engrenagem da estrutura administrativa do governo para repressão dos opositores, fossem eles comunistas, integralistas ou, puramente, desafetos.
Felinto Müller partiu de Mato Grosso para Lorena (SP) e, em seguida, Rio de Janeiro (RJ) sempre obstinado em destacar-se na carreira militar.
Faleceu em 1973 num acidente de avião, ao chegar a Paris. Na época do desastre, que vitimou junto com ele a mulher e um filho, estava tratando da substituição do ditador Emilio Garrastazu Médici pelo também ditador Ernesto Geisel. Pode-se dizer que todo mundo se cerca de pessoas nefastas: Juscelino Kubitschek estava ao lado dele e, numa época que Filinto Müller caiu de uma árvore, chegou a visitá-lo no hospital, pois eram colegas de partido.
É assustadora a leitura do livro. Nele se encontra toda a gênese do ímpeto totalitário brasileiro — esse desejo de controlar tudo, de abolir pessoas, de apossar dos bens públicos. Assustadora essa mentalidade, e, depois, os brasileiros ainda se denominam cidadãos afáveis e cordiais! Não enxergam que estão sempre dispostos a abolir e a desrespeitar o outro sem que exista instância para julgá-lo.
Recentemente, houve teatralização da Ku Klux Klan bem em frente à maior corte de Justiça do país. Se não respeitam a Justiça, sentem-se no direito de desacatar a vizinhança da porta ao lado ou passar por cima do lixeiro que está na rua fazendo seu trabalho, quanto mais no ato de participação política — logo enfiam uma bucha de mostarda no sexo do adversário que está seguindo outro caminho. Julgam que só a própria facção deve existir, tenham ou não razão.
O livro aborda temas pouco ou nunca aprofundados pela historiografia brasileira. Talvez até falte material para tratamento mais elaborado pelos historiadores, pois o funcionamento de organismos repressores nem sempre ocorrem dentro de ditames públicos legais.
Mas é possível notar que existem teses universitárias que se preocupam com algumas questões levantadas no livro. É o caso do artigo “O Tribunal de Segurança Nacional e a sua atuação no Brasil dos anos 1930 e 1940”, de Júlia Kertesz Renault Pinto, que está disponível na internet. (Por sinal, o livro “Suástica Sobre o Brasil”, do brasilianista Stanley Hilton, relata a história de brasileiros que colaboraram com o nazismo. Entre eles um poeta famoso.)
Por exemplo: ninguém fala abertamente do Tribunal de Segurança Nacional, que era o STM de Vargas, incumbido de julgar e sumir com adversários políticos — fosse ele policial, militar ou civil, pobre ou rico.
Quando a inflação ficou incontrolável, o TSN ficou incumbido também dos crimes contra a economia popular. Um verdadeiro monstro avassalador, atuando acima da lei, tudo em nome da Ordem e da Segurança Nacional. Só em três processos, o TSN condenou 219 pessoas, com sentenças irrecorríveis.
No sistema repressor do Estado Novo, o pobre estava jogado no mato sem cachorro (e ainda não está?): pegavam pessoas de rua para cobaias nas aulas de tortura. Estão no Arquivo Nacional todos os documentos desse TSN, que devem conter relatos e decisões monstruosos, pois foi monstruosa a sua atuação. Podiam encaminhar presos políticos para trabalho escravo em fazendas de familiares de políticos.
Assim fica perpetuada a fórmula: contratação de fantasmas pelos gabinetes de políticos. É urgente desabilitar essas práticas da política nacional. Qualquer cabinho eleitoral acha que se tornou um coronel de sua rua, ficando acima da lei. Governadores se proclamando justiceiros do crime por meio da eliminação física dos criminosos sem a participação da Justiça. É a mesma tradição da política repressora de Vargas.
Por exemplo: o Departamento Especial de Segurança Política e Social (Desps), dirigido por Filinto Müller, que fazia e acontecia com seu aparato de tortura, propiciou o nascimento do SNI, que tanto vitimou opositores políticos na ditadura de 1964 (vale lembrar que Golbery do Couto e Silva disse, mais tarde, que havia criado um “monstro” — o Serviço Nacional de Informação).
A cadeira americana: usa para torturar
O aparato opressor de Vargas trouxe militares franceses e alemães para ensinar práticas monstruosas à polícia brasileira. Adotaram uma cadeira americana para práticas de tortura. Sentavam o prisioneiro nessa cadeira americana e, quando a acionavam, o preso era atirado na parede com todo ímpeto. Para não mancharem a roupa de sangue, os policiais participavam sem farda das sessões de tortura.
Ainda tem o exemplo do Quadro Móvel (um departamento policial, que não era visível na estrutura de governo, incumbido de desaparecer com presos políticos).
Esse Quadro Móvel, que era a Gestapo de Vargas, motivaria o surgimento dos esquadrões da morte que infestam o país de Norte a Sul. O Quadro Móvel executava as ordens dos governantes e nenhuma autoridade precisava responder pelas atrocidades, pois poderia alegar que não tinha conhecimento daquilo que mandou executar.
Os governos sempre procuraram restabelecer essas gestapos: o ex-presidente Jair Bolsonaro queria criar um grupo de militares para defendê-lo na Esplanada, o governador do Distrito Federal queria criar um batalhão para cuidar da Esplanada. Desses pequenos núcleos nascem as piores gestapos. Está na internet a definição para Gestapo. Serve também para definir o Grupo Móvel, basta substitui a expressão.
A Gestapo foi a polícia secreta da Alemanha nazista, sendo responsável por realizar a perseguição e o silenciamento de todos os grupos que pudessem representar algum tipo de ameaça para o controle dos nazistas.
Vale recordar que a dupla Getúlio Vargas e Filinto Müller entregaram Olga Benário, a mulher de Luiz Carlos Prestes, para o regime nazista de Adolf Hitler. E não se pode esquecer que a polícia de Vargas prendeu Graciliano Ramos sem nenhuma acusação formal, e antes mesmo do Estado Novo. A história está documentada no monumento “Memórias do Cárcere” (Record, 686 páginas).
O livro demonstra como atuam as figuras hipócritas para que existam os regimes de exceção.
Hipócritas são aqueles indivíduos que não se expõem publicamente, mas, nos bastidores, assumem todas as atrocidades do regime.
Nesse caso, a hipocrisia passou a grassar no Brasil após os ensinamentos de Getúlio Vargas. Ficou fácil para o golpismo, pois Vargas mostrou como montar o aparato fascista pelas portas dos fundos. A começar, o controle total da imprensa… Se existissem as redes sociais, o regime totalitário de Vargas teria inventado a fake news. Seu chefe do Departamento Imprensa e da Propaganda, Lourival Fontes, era visto como o Goebbels patropi.
E a hipocrisia permanece e reina na nossa elite, nos nossos quartéis, nas escolas militares. Precisamos conhecer melhor o nosso país para nos libertarmos da hipocrisia totalitária.
Da hipocrisia de querermos dançar só com generais, como lembra Dostoiévski com o personagem Zina, da novela “O Sonho do Tio”.
Quem leu, repudia e combate a recente orientação ideológica de formação fascista pelas escolas militares, com ingerência total do Ministério da Defesa?
Quem propôs homenagens a ditadores em diversas universidades e assembleias brasileiras?
Quem montou a homenagem a Otávio Lage no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) ― esse governador que legitimou a ditadura no Estado de Goiás?
Enquanto intelectuais participarem de portfólios de figuras totalitárias não vamos amadurecer a nossa democracia. Enquanto não abolirmos as homenagens a Filinto Müller dos nomes de monumentos e de ruas (só em 2013, dez escolas receberam o seu nome), estaremos compactuando com as atrocidades que se comete em nome da política.
Indico o livro “O Homem Mais Perigoso do País”, pois precisamos ter consciência de que devemos melhorar a nossa compreensão de prática e de participação política.
Não podemos continuar nos enxergando, narcisisticamente, como seres políticos que abolem e eliminam para se preservar ou sustentar o próprio grupo. O ser político é aquele que tem a responsabilidade pela integração de todos na nacionalidade.
Salomão Sousa, poeta, prosador e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.
Leia mais sobre Filinto Müller
[https://tinyurl.com/4r8f3wt6]
O post Saiba o que o ditador Getúlio Vargas e Filinto Müller têm a dizer a respeito de Bolsonaro apareceu primeiro em Jornal Opção.
