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Eleitor não é bobo

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Durante muito tempo, repetiu-se como mantra que o eleitor brasileiro tinha memória curta. A tese serviu de álibi para governantes, partidos e grupos de interesse que apostavam no esquecimento como método político. O problema é que o tempo passou, o País mudou — e o eleitor também. Hoje, mais informado, mais desconfiado e mais atento às conexões de poder, o cidadão percebe quando a retórica não corresponde aos fatos. Pesquisas recentes de institutos como Quaest/Genial e AtlasIntel/Bloomberg apontam que o eleitor acha que a corrupção voltou ao topo da lista dos maiores problemas nacionais, ao lado da violência urbana e das deficiências no sistema público de saúde. Não se trata de nostalgia do passado nem de paranoia coletiva. Trata-se de percepção construída a partir de uma sequência de fatos, investigações e escândalos que voltaram a ocupar o noticiário policial e político. O brasileiro comum acompanha, ainda que de forma fragmentada, as notícias sobre fraudes no INSS, esquemas de venda de títulos suspeitos no sistema financeiro, investigações envolvendo fundos de investimento e apurações sobre lavagem de dinheiro do crime organizado. Mesmo quando os processos ainda estão sob investigação e longe de sentenças definitivas, a sensação que se instala é clara: algo está fora do lugar. Essa percepção não nasce apenas do fato em si, mas do entorno institucional que o cerca. O eleitor observa que muitos desses episódios atravessam instâncias do Congresso, do Executivo e do Judiciário sem produzir respostas rápidas, claras ou exemplares. O resultado é um sentimento difuso de impunidade — ou, no mínimo, de condescendência sistêmica. O caso das fraudes previdenciárias, por exemplo, afeta diretamente o bolso e a dignidade de milhões de brasileiros. Já as suspeitas envolvendo o sistema financeiro — espaço que deveria operar sob rigor técnico e fiscalização permanente — reforçam a impressão de que há áreas blindadas por relações políticas, lobistas eficientes e zonas cinzentas de regulação. Quando surgem indícios de que organizações criminosas tentam infiltrar recursos ilícitos em estruturas formais da economia, o alerta social se amplia. Não é preciso que o eleitor domine os detalhes jurídicos ou financeiros dessas operações. Basta-lhe perceber o padrão: investigações que se arrastam, personagens poderosos que raramente aparecem algemados, discursos oficiais que relativizam fatos graves e uma sucessão de explicações técnicas que pouco dialogam com a vida real. O cidadão não precisa de provas nos autos; ele julga pelo contexto. É nesse ponto que a política erra ao subestimar a inteligência coletiva. O eleitor não exige perfeição moral, mas espera coerência, transparência e ação. Quando percebe que escândalos são tratados como “ruído”, “narrativa” ou “exagero da imprensa”, reage com ceticismo. E ceticismo, em democracia, é combustível para o voto de protesto, a abstenção ou a radicalização. A volta da corrupção ao centro das preocupações nacionais não significa apenas rejeição a governos ou partidos específicos. É um sintoma de fadiga institucional. O eleitor enxerga um Estado que promete muito, entrega pouco e se protege demais. Enxerga serviços públicos frágeis, ruas inseguras e, ao mesmo tempo, redes de poder funcionando com eficiência notável para se autopreservar. Em ano eleitoral, ignorar esse sentimento é erro estratégico. Campanhas que apostarem apenas no velho marketing, com slogans vazios ou ataques laterais, tendem a tropeçar no óbvio: o eleitor está vendo. Não compra gato por lebre. Compara discursos e fatos. Está conectando pontos. A democracia não vive apenas de votos, mas de confiança. E confiança, uma vez corroída, não se recompõe com propaganda. O eleitor não é bobo. Ele percebe quando a política tenta empurrar para debaixo do tapete aquilo que salta aos olhos de todos. E, quando percebe, responde nas urnas — ou fora delas. (*) Gaudêncio Torquato, escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.






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