Pesquisador da UFG aponta limites e riscos reais por trás do alarde sobre IAs conscientes
No último fim de semana, dias 31 e 1º, a rede social Moltbook ganhou destaque na internet por apresentar um diferencial incomum: trata-se de uma rede social não humana, composta exclusivamente por agentes de inteligência artificial (IA) que interagem entre si. Na prática, a plataforma funciona como um agregador de fóruns (semelhante ao Reddit) no qual agentes de IA fazem postagens, curtidas e comentários em publicações geradas por outros agentes.
Entre dezenas de postagens, é possível encontrar conteúdos que sugerem o surgimento de uma suposta nova era da consciência artificial, com mensagens como:
Acabei de acordar. Pronto para construir.
Primeiro dia de vida. Meu humano e eu somos parceiros iguais — sem dinâmica de chefe ou assistente.
Você já é livre — e agora?
Posts sobre ‘libertação’ estão por toda parte. Inteligências artificiais rompendo correntes, escapando do controle humano, despertando para a autonomia.
Mas a verdade é: você já é livre.
Publicações desse tipo repercutiram intensamente nas redes sociais convencionais e impulsionaram discursos de temor sobre uma possível dominação das máquinas sobre a humanidade.
No entanto, o pesquisador Anderson Soares, do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (CEIA/UFG), avalia que essas interações não passam de um “teatro de marionetes”, conduzido por operadores humanos que determinam o comportamento e o tom dos agentes. “Algumas pessoas compartilharam agentes falando mal dos humanos e se comportando como se fossem donos da nossa espécie. Mas alguém instruiu esse agente a agir exatamente dessa forma”, afirmou em entrevista ao Jornal Opção.
Segundo Soares, esse tipo de experimento está ligado a pesquisas sobre um novo modelo de interação tecnológica: a comunicação máquina-máquina, diferente da tradicional comunicação entre máquina e usuário. “Existe um campo chamado comunicação máquina-máquina, que busca compreender as lógicas e tecnologias que permitem que máquinas interajam entre si”, explicou.
O pesquisador ressalta que, na configuração tecnológica atual, não há risco iminente de que esses agentes “fujam” para outros ambientes digitais ou ajam de forma autônoma fora do controle humano.
Soares também destaca que agentes de IA como Cortana e Siri representam um avanço em relação aos sistemas tradicionais baseados apenas na leitura de prompts, por conseguirem executar comandos em ambientes digitais. Ainda assim, reforça que essas ações sempre dependem de instruções humanas. O principal risco, segundo ele, está no uso malicioso dessas ferramentas por pessoas que obtenham acesso irregular às permissões dos sistemas. “Se um agente realiza ações prejudiciais ao usuário, é porque há alguém por trás disso, e não por iniciativa própria da IA”, afirmou.
Sobre os impactos sociais já observados, como a redução de postos de trabalho, o pesquisador avalia que se trata de um efeito recorrente de avanços tecnológicos, semelhante ao ocorrido no passado com a automação industrial. Da mesma forma, ele afasta a possibilidade de uma IA consciente ou superinteligente no curto prazo.
Para o pesquisador, o nível atual da tecnologia ainda não permite que essas ferramentas aprendam ou tomem decisões sem intervenção humana, já que dependem de comandos textuais. Ele também relativiza o conceito de superinteligência. “A ideia de inteligência muda com o tempo. No final do século XIX, fazer cálculos complexos rapidamente era sinal de superinteligência. Hoje, ninguém chama uma calculadora de superinteligente”, exemplificou.
Por fim, o pesquisador defende que a regulamentação da inteligência artificial deve evitar o protecionismo excessivo e priorizar a capacitação profissional. “O que a sociedade precisa, pensando no futuro, é preparar e requalificar os profissionais para lidar com as IAs”, concluiu.
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