Moradores de assentamentos protestam contra transferência de escola da zona rural de Goiás
Moradores de assentamentos rurais da Cidade de Goiás intensificaram, nas últimas semanas, a mobilização contra a proposta da prefeitura de transferir a Escola Municipal Olympia Angélica de Lima para outra unidade localizada no distrito de Colônia de Uvá. A medida, apresentada em reuniões ao longo de dezembro, provocou indignação na comunidade escolar, que vê na possível mudança uma ameaça não apenas à educação das crianças, mas à própria sobrevivência social e econômica da região.
A escola atende famílias dos assentamentos São Carlos e União dos Buritis, além de comunidades como Buriti Queimado, Bom Sucesso e áreas rurais vizinhas. Ao todo, cerca de 60 alunos estão matriculados na unidade.
Apesar disso, a prefeitura argumenta que o custo de manutenção seria alto em relação ao número de estudantes e propõe a transferência das atividades para a Escola Pingo de Gente, localizada a aproximadamente 17 quilômetros da atual sede, na zona rural da Colônia de Uvá.
Em entrevista ao Jornal Opção, o representante de pais Fernando Alves, morador do Assentamento São Carlos e pai de aluno, afirmou que a decisão ignora a realidade local. Segundo ele, o fechamento ou esvaziamento da unidade afetaria toda a dinâmica da comunidade.
Fernando também contestou a justificativa baseada no número de alunos. “Quando eles falam a respeito da quantidade de alunos, se a gente for puxar a escola da Colônia, a escola da Barra, a da Calcilândia, a da Holanda, é o mesmo número, tem escola até com menos alunos”, afirmou. Para os pais, o argumento financeiro não se sustenta, especialmente diante do histórico e dos resultados pedagógicos da instituição.
Veja fotos da Escola Olympia:
Segundo Fernando, uma das propostas apresentadas pelo município prevê manter apenas parte das turmas na Escola Olympia, concentrando no local apenas a educação infantil, enquanto alunos do ensino fundamental seriam deslocados para Colônia de Uvá.
A alternativa, no entanto, foi rejeitada pela comunidade. “Na verdade, vai ficar morto a escola aqui. Isso é só para ganhar tempo”, avaliou Fernando, destacando que a medida levaria ao esvaziamento gradual da unidade.
Além do impacto educacional, os pais apontam o aumento significativo das distâncias percorridas pelas crianças. Atualmente, muitos alunos já enfrentam longos trajetos em estradas de terra. Com a transferência, esse tempo seria ampliado. “Tem criança de quatro anos, cinco anos, que vai andar, em média, 40 quilômetros para poder chegar”, relatou.
O próprio filho de Fernando, de 17 anos, enfrenta uma rotina exaustiva. “Sai de lá 17h para chegar em casa às 19h. Chega tão cansado que nem lembra de comer, prefere dormir.”
Outro ponto levantado pela comunidade é o papel estratégico da escola na região. Para os moradores, a unidade funciona como um verdadeiro polo de desenvolvimento. “Ela é o coração dessa região”, afirmou Fernando. Segundo ele, a presença da escola facilita a manutenção de estradas, pontes e serviços públicos.
A escola Olympia também é reconhecida pelo desempenho pedagógico. De acordo com os pais, a unidade se tornou referência além dos limites do município. “A nossa escola, hoje, é referência. Não é aqui no município. É a nível nacional. Ganhou prêmios a nível nacional”, enfatizou o representante dos pais, questionando os motivos para o encerramento de uma instituição considerada exitosa.
A mobilização ganhou força ao longo de dezembro, com reuniões comunitárias e manifestações públicas. Em uma das reuniões mais recentes, realizada no dia 17 de dezembro, vereadores e representantes de instituições participaram do debate. Estiveram presentes os vereadores Sebastião Alves de Carvalho Júnior (Júnior da Areia), Sidnei Antônio Rosa e Solinar Pinto dos Santos. A Universidade Estadual de Goiás (UEG) também enviou representantes, entre eles o diretor do Câmpus Cora Coralina, Rodrigo Bastos Daúde, além de pesquisadores e docentes que ouviram as demandas da comunidade.
A discussão contou ainda com a participação de Divina Souza, representando o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e Agricultores e Agricultoras Familiares de Goiás. Segundo os participantes, o encontro demonstrou a união dos moradores em defesa da permanência da escola e a importância do diálogo institucional.
Apesar das reuniões realizadas, os pais afirmam que a decisão já estaria encaminhada pela prefeitura. “Eles falam que nunca disseram fechar, mas transferir. Só que, na prática, em janeiro já seria tudo para a colônia”, relatou Fernando. A suspensão temporária da medida ocorreu, segundo ele, em razão das manifestações da comunidade.
Uma nova reunião está prevista para esta quarta-feira, 7, desta vez na sede da Prefeitura da Cidade de Goiás. A expectativa é de grande participação popular. “Vamos encher a prefeitura”, afirmou Fernando, acrescentando que a comunidade pretende apresentar contrapontos às contas apresentadas pelo município, que teriam indicado um gasto anual de R$ 7 milhões com a escola, número considerado incoerente pelos moradores.
Em nota encaminhada ao Jornal Opção, a Prefeitura de Goiás esclareceu as mudanças em estudo na rede municipal de ensino, incluindo a situação da Escola Municipal Olympia Angélica de Lima, localizada no Assentamento São Carlos.
Confira nota completa:
“A Prefeitura Municipal de Goiás vem esclarecer sobre mudanças na rede pública de ensino, incluindo a Escola Olimpya Angélica de Lima, no Assentamento São Carlos.
Após criteriosa avaliação, a Secretária Municipal de Educação identificou déficit de estudantes tanto na Escola Olimpya, quanto na Escola Pingo de Gente, no Distrito de Colônia de Uvá, que fica a 12 quilômetros do Assentamento São Carlos.
A partir destas informações foram iniciadas conversas entre a equipe pedagógica da secretaria, e também com a comunidade, para estudar medidas de adequação da rede, com base em dados concretos e levando em conta a qualidade do ensino e os possíveis impactos para os estudantes.
Após este diálogo, a Prefeitura definiu que não haverá fechamento da escola Olimpya Angélica de Lima, e o reordenamento de turmas está sendo discutida com a comunidade escolar.
A Prefeitura reafirma seu compromisso com uma educação pública universal e de qualidade.”
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