Compêndio da Bíblia – 3. Levítico
- Por Emídio Brasileiro – Educador, Jurista e Cientista da Religião
Levítico é o terceiro livro da Bíblia e integra o Pentateuco, cuja autoria é atribuída a Moisés. O nome “Levítico” deriva da tribo de Levi, um dos filhos de Jacó e uma das doze tribos de Israel. Os levitas davam assistência aos sacerdotes, eram responsáveis pelos serviços no Tabernáculo e, posteriormente, no Templo de Jerusalém, inclusive com música.
O livro foi escrito aproximadamente entre os anos 600 e 400 a.C., mas narra acontecimentos ocorridos em um curto período — cerca de trinta a quarenta e cinco dias — entre a conclusão da construção do Tabernáculo e a partida dos israelitas do Sinai.
A obra contém 27 capítulos, organizados em cinco seções principais:
- Leis referentes às ofertas (caps. 1–7);
- Leis para o exercício do sacerdócio (caps. 8–10);
- Leis a respeito da purificação e da santidade (caps. 11–22);
- Leis para as festas (caps. 23–24);
- Leis relativas à terra e aos votos (caps. 25–27).
O livro começa com instruções detalhadas sobre os diversos tipos de ofertas e sacrifícios que deveriam ser realizados no Tabernáculo como expressões de adoração, arrependimento, gratidão, pedido de perdão e comunhão com Deus. Havia cinco tipos principais de ofertas:
I – Ofertas voluntárias:
- Holocausto – animal completamente queimado no altar como oferta de entrega total a Deus;
- Oferta de cereais – feita com farinha, azeite e incenso, em agradecimento pelos frutos da terra;
- Oferta pacífica (ou de comunhão) – celebração da comunhão com Deus.
II – Ofertas obrigatórias:
- Oferta pelo pecado – para expiação de faltas cometidas;
- Oferta pela culpa – aplicada quando havia dano ao próximo e exigia também restituição.
Os sacerdotes, mediadores entre Deus e o povo, tinham a responsabilidade de oferecer sacrifícios, ensinar a Lei e zelar pela santidade do culto. Moisés realizou a cerimônia de consagração de Arão e seus filhos para o sacerdócio. Nesse contexto, Nadabe e Abiú, filhos de Arão, morreram ao oferecer “fogo estranho” diante do Senhor, como exemplo de que a adoração deve ser feita com reverência e obediência às ordens divinas.
O livro traz também a bênção sacerdotal de Arão, a descrição das vestes sacerdotais e do Tabernáculo, além de normas específicas para os sacerdotes, que deviam manter padrões elevados de pureza e conduta.
As leis de pureza cerimonial e moral tratam de temas como alimentos puros e impuros, impurezas corporais (como parto, doenças de pele — especialmente a lepra — e secreções) e regulam aspectos de higiene, saúde e comportamento. Há também instruções éticas e espirituais que abordam respeito à vida, à sexualidade, à justiça social e à fidelidade a Deus. O livro condena a idolatria, a imoralidade e a injustiça, e exorta o povo a viver com integridade.
Há destaque para leis sobre relacionamentos, como o amor ao próximo, honestidade, respeito aos pais, cuidado com os pobres e justiça nos julgamentos. Um dos versículos mais conhecidos é Levítico 19:18:
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
O livro também enfatiza a guarda do sábado, o sétimo dia reservado para descanso e adoração, como símbolo da aliança divina. Apresenta ainda o calendário das festas sagradas do Senhor:
• Páscoa e Pães Asmos – lembrança da libertação do Egito;
• Primícias – celebração da primeira colheita;
• Pentecostes (ou Festa das Semanas) – gratidão pela colheita principal;
• Festa das Trombetas – chamado ao arrependimento;
• Dia da Expiação (Yom Kippur) – o dia mais sagrado, marcado pelo jejum e pela confissão dos pecados. Nesse dia, o “bode emissário” (ou bode expiatório) era enviado ao deserto e levava simbolicamente os pecados do povo;
• Festa dos Tabernáculos – recordação do tempo em que o povo habitou em tendas no deserto.
Levítico trata ainda da manutenção contínua do culto, das normas de justiça no convívio social, do pão da proposição (oferecido a cada sábado) e de punições justas para crimes, como no caso de blasfêmia. Estabelece o princípio da pena proporcional — “olho por olho, dente por dente” — para que a justiça não seja substituída por vingança.
O livro apresenta também as bênçãos e maldições ligadas à aliança com os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. Institui o Ano Sabático, a cada sete anos, quando a terra deveria descansar e o alimento disponível seria partilhado. Também institui o Ano do Jubileu, celebrado a cada cinquenta anos, quando as propriedades voltavam aos donos originais e os escravos israelitas eram libertos.
Por fim, trata dos votos e dedicações voluntárias ao Senhor. Toda promessa feita a Deus deveria ser cumprida, e o dízimo — a décima parte de toda a produção — era reconhecido como pertencente ao Senhor.
Levítico é considerado o “livro da santidade”, pois ensina que o povo de Israel deve viver em pureza e separação do pecado para agradar a Deus.
Leia também:
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