Autor de Coisa de Rico, Michel Alcoforado é o mais novo colunista de O Globo
“Coisa de Rico”, do antropólogo Michel Alcoforado, foi o livro de ficção que mais vendeu no Brasil em 2025 (exatos 110 mil exemplares).
Ao mostrar como vivem os ricos, e as “marcas” que adotam para distingui-los, Michel Alcoforado contribuiu para mostrar um Brasil que é visto à distância. Ou nem é visto pela maioria, nem mesmo pelo jornalismo econômico.
O sucesso de Michel Alcoforado o levou a ser contratado pelo jornal “O Globo” para escrever uma coluna, publicada no sábado, e uma newsletter.
Ao passar a virada do ano em Salvador, Michel Alcoforado notou que um vestido com estampa que “lembrava azulejos portugueses” fazia o maior sucesso (uso a reportagem de Emiliano Urbim, de “O Globo”). Aquilo despertou a curiosidade do antropólogo. Ele descobriu que o vestido viral, por assim dizer, é vendido na Shopee.
“Deus, afinal, mora nos detalhes”
A percepção aguda do cotidiano — lembrando que Deus mora nos detalhes — deve aparecer nas páginas de “O Globo”. “Meu objetivo é mostrar como eventos do dia a dia abrem brecha para a gente ver o cotidiano de forma completamente diferente. Olhar para o que todo mundo está vendo e enxergar algo diferente.”
“As questões triviais do dia a dia são uma brecha para entender a cultura, para captar o espírito do tempo. Uma roda de samba no Jockey Club é um cenário rico para analisar. Nessa linha, me interessa muito a tensão entre exótico e familiar: entender como coisas que a gente acha que são dos outros estão na gente e, ao mesmo tempo, ver as coisas que a gente acha que são da gente e estão no outro”, afirma o antropólogo.
O que diz Michel Alcoforado é interessantíssimo. A imprensa brasileira perdeu muito a capacidade de perceber o detalhe que, no fundo, é decisivo para se entender uma sociedade e o indivíduo. O jornalismo está se repetindo. Todos estão indo para o mesmo lado. Parece que há a constituição de um “rebanho”.
“Quero trazer um termômetro de para onde o Brasil comezinho está indo. Não vou falar do noticiário. Só vai me interessar o soluço de Bolsonaro se estiver na boca do fulano que está bebendo no boteco. Só me interessa o Trump se virar música de carnaval”, sublinha o novo intérprete das ruas — uma espécie de discípulo tardio de João do Rio, o grande cronista patropi.
Alcoforado não ficou rico com “Coisa de Rico”
Michel Alcoforado ficou rico as vendas do best-seller “Coisa de Rico”? Na verdade, não. “Eu passei a gastar mais. Dobrei as sessões de análise e as idas à mãe de santo”, sublinha.
Agora, se o livro for levado ao cinema — há histórias que, a rigor, são roteiros cinematográficos prontos e acabados —, Michel Alcoforado poderá se tornar milionário. Ou seja, poderá se tornar objeto de estudo. Por ter se tornado rico.
Outra expectativa é uma possível tradução para o exterior. “Coisa de Rico” poderia ser desdobrado com pequenas biografias de alguns ricos? Talvez seja um caminho para os novos livros do antropólogo.
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