As cebolinhas de Dona Ermengarda
Dona Ermengarda morava numa casa antiga, na conhecida Rua d’Abadia. Já quase nonagenária, era a última de uma irmandade extensa, com a curiosidade de que todos os nove irmãos haviam morrido solteiros, homens e mulheres. As línguas desocupadas interrogavam-se a respeito desse fenômeno, aventando a hipótese mais provável de que isso talvez se devesse à absoluta falta de beleza que era característica da família. Ou seja, todos eram de uma feiura medonha.
Mas isso tem pouca importância para o nosso caso.
Dona Ermengarda era uma pessoa muito estimada na cidade. Quando as debilidades e achaques que acompanharam sua idade ainda não estavam presentes, era assídua frequentadora das novenas, missas e festas religiosas. Do mesmo modo, procurava sempre praticar as obras de caridade, colaborando com as instituições voltadas a minorar o sofrimento dos menos afortunados.
Para ganhar uns cobres que lhe permitiam engordar os caraminguás de uma pensão de mercê da municipalidade, cultivava flores no vasto quintal e zelava de túmulos no cemitério local, tendo por clientela cativa as famílias mais importantes da cidade. Estas, em lugar de se ocuparem elas mesmas dos jazigos familiares, preferiam, por comodidade, terceirizar a tarefa. Dessa forma, hipocritamente, passavam a impressão de que os entes queridos ali sepultados continuavam a merecer a atenção e o apreço dos familiares que por ali passavam, quando muito, uma vez por ano, no Dia de Finados, em cumprimento a um protocolar rito social.
A despeito da idade e das progressivas limitações dela decorrentes, Dona Ermengarda continuava ativa, dentro de casa, cuidando de suas plantas, fazendo sua própria comida e lavando suas roupas. Detestava gente preguiçosa:
— Esse povo de hoje não quer saber de fazer mais nada… quer achar tudo pronto pelas mãos dos outros, dizia sempre. Além disso, detestava “os modernismos”, especialmente a moda de simplesmente descartar as coisas antigas, em lugar de dar-lhes conserto.
Recentemente, por exemplo, mandara às favas um sapateiro, quando queria que este pusesse meia-sola numas chinelas que tinha já há anos. Dele ouviu que seria melhor comprar um novo par do que fazer o reparo… Pra quê? Saiu com o homem na testa e disse que ali não punha mais os pés.
— Povo mais sem noção! Num tem presente o valor do dinheiro! Tudo é pra jogá fora e comprá novo!… esbravejava.
Um belo dia, bateram à porta.
— Vai entrano! Tô aqui no quarto…
Uma mocinha de seus 12 para 13 anos chegou até à porta do quarto, logo à esquerda depois de transposta a porta-do-meio.
— Bença, Dona Ermengarda.
— Deus bençoe, fia. Chegue mais perto, porque o dia hoje tá escuro e a vista já num é muito boa…
A menina aproximou-se mais e ia já dizer alguma coisa, quando a velha se adiantou:
— Ah, é ocê, Mariinha. Cum vai?¹
— Tô boa, grazaDeus. E a senhora?
— Ah, minha fia, numa ruindade que só veno! Depois que caí lá no quintá, nunca mais prestei. É uma dorzera pra todo lado… Mas o que é qu’ocê qué?
— Mãe mandô pidi um pouco de cebolinha verde se a senhora tivé…
— Hum bão! Eu num posso ir, mas ocê vai lá no quintá. Tem plantada numa bacia véia. Tira lá um pouco, mas tira com a raiz e traz cá pr’eu vê.
A menina obedeceu. Foi ao quintal bem cuidado e localizou sem dificuldade a bacia velha em que estavam plantadas as viçosas cebolinhas, além de salsa e alfavaca. Fez como a velha mandara, arrancando com cuidado uma boa quantidade de cebolinhas verdes com as raízes esbranquiçadas. Passou-as pela água da torneira que havia ali perto e voltou ao interior da casa.
— Pronto, Dona Ermengarda. Tá aqui do jeitinho que a senhora mandô…
A velha, estendendo as mãos, apanhou os talos viçosos das cebolinhas, vistoriou a qualidade das raízes e devolveu-as à menina, dizendo:
— Eu acho que ocês num mora em riba da pedra, num é mesmo? Fala então pra sua mãe que vai com a raiz que é procês plantá e num tê mais que pedir na caduzôto²…
A menina, mais que depressa, entendeu o recado e tratou logo de cair fora antes que dali viesse mais alguma outra bordoada…
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
Dicionário de goianês
¹ Como vai?
² Casa dos outros
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