Nikolas Ferreira e afins eles passarão. Eu passarinho
Perdão, altaneiro leitor, por este título longo. Você certamente já percebeu que ele foi bebido no “Poeminha do Contra”, do magistral Mario Quintana, o qual está na minha relação de bardos especiais. Foi com sua poesia que aprendi a colher o canto dos passarinhos para muitos versinhos que rabisco. Manoel de Barros também é meu mestre em passarinhação em sua “abundância de ser feliz” por ter sido “aparelhado para gostar de passarinhos”.
Estou escrevendo este texto enquanto asas-brancas, rolinhas-roxas, avoantes e canários-da-terra se alimentam à beira da minha janela. Tem aparecido também uma ave de rapina: um gavião-pedrês. Na verdade, já o vi dando as caras por duas vezes. Na primeira, teve êxito em seu mergulho fatal: saiu com uma rolinha-roxa entre as garras de um dos seus pés. Na segunda investida predatória, só ficou na vontade.
Movido pelo título deste texto, não se precipite na leitura de me definir como lulista, esquerdista ou algo semelhante. Estou fora dessas gaiolas do sufixo “ista” da pocilga do mundo político, dentro do qual há pouco trigo. Os chefões dessas gaiolas fazem a sua claque de imbecil, de marionete: a ponto até de fazê-la plantar batata no asfalto e se sentir útil nessa tarefa de “lavoura arcaica” (quilometricamente longe da do livro homônimo de Raduan Nassar). Robotização emocional é uma jaula perigosa: a pessoa aprisionada tem seu afeto anulado, seu gesto humano é automatizado, seu sentir deixa de existir. Cidadania não é ficar carregar santo de pés de barro em andor. Cidadania é ação racional. Faz-se necessário saber que os políticos são empregados do povo.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) é um Forrest Gump de meia-pataca. Essa caminhada dele de Minas Gerais a Brasília é luta por uma liberdade para inglês ver. O Forrest do filme é a inocência em pessoa, seu intelecto é do tamanho do grão de mostarda, mas moralmente é um gigante. Sua travessia pelo mundo afora (até participou da Guerra do Vietnã) é movida sem cinismo, sem pose de bom-mocismo. Gump teve uma mãe muito amorosa. As frases dela eram lapidares. Segundo o filho, sua mãe sempre “dizia que se pode saber muito sobre uma pessoa pelos sapatos dela”.
No início do filme, uma pena flutua por alguns instantes para servir de metáforas diversas, mas essencialmente para dizer que a vida não é em linha reta, o que reflete a trajetória de vida de Forrest. A pena acaba caindo sobre o tênis direito do personagem, que está sentado no banco de um ponto de ônibus com sua malinha e seus parcos pertences. O tênis de Forrest está todo detonado; e isso, óbvio, não vamos ver no tênis no deputado, que alega estar caminhando em protesto pela falta de liberdade.
Falta de liberdade mesmo havia no tempo sombrio que o santo do pau oco Jair Bolsonaro tanto venerava: o tempo fúnebre do coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandou com extrema violência o DOI-CODI de São Paulo no início dos anos 70. Foi um tempo de trevas, de torturas, de mortes. Foi no útero podre desse tempo que Vladimir Herzog — jornalista, professor e diretor de jornalismo da TV Cultura — foi assassinado.
Na manhã do dia 25 de outubro de 1975, Herzog se apresentou voluntariamente para prestar esclarecimentos sobre supostas ligações suas com o Partido Comunista Brasileiro. Pouco depois, seu corpo foi encontrado morto dentro do prédio. Alegaram suicídio à época. A família de imediato contestou a versão. Três anos depois, o juiz federal Márcio José de Moraes desmascarou a mentira do suicídio e responsabilizou a União pela prisão, tortura e morte de Herzog.
Pensar fora da cartilha do governo militar, que durou de 1964 a 1985, era muito perigoso. Nessa época sombria, havia agentes do governo dentro dos jornais para permitir ou não publicação das matérias. Estas, se tivessem críticas ao governo, abordassem desigualdade social ou luta de classes, não eram publicadas. Os capítulos das novelas tinham de ser aprovados antes de irem ao ar. O jornal O Estado de S. Paulo achou uma saída poética para substituir as matérias censuradas: publicar trechos do poema épico “Os Lusíadas”, do bardo português de Luís de Camões, nos espaços das matérias. Já o Jornal da Tarde se valia de receita de bolos.
Crédito: Reprodução
Enfim, cabreiro que sou com ações políticas espalhafatosas, arrisco a dizer que está mais fácil um boi franqueiro passar pelo buraco de uma agulha do que ser verdade que o deputado (e outros pegando bonde no teatro barato) está caminhando pela liberdade no Brasil.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza
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