Presença de mulheres em clubes de tiro cresce 30% em Goiás
Os clubes de tiro estão ganhando mais presença de mulheres. Dados da Liga Nacional de Atiradores Desportivos (Linade) mostram que houve um aumento de 30% do público feminino dentro desses espaços em Goiás. Ao todo, segundo a entidade, são 1.090 atletas ativas que estão distribuídas em diversas regiões do Estado.
Entretanto, apesar da modalidade esportiva, muitas mulheres têm o primeiro contato com esse mundo advinda de experiências traumáticas. A primeira entrevistada foi vítima de agressão por parte do seu ex-companheiro. Por questões de segurança, ela será descrita ao longo do texto como S.C.
Segundo ela, o ex não tinha demonstrado nenhum sinal de violência ao longo dos quatro meses que estavam juntos. O ataque aconteceu durante uma viagem, na presença do filho, então com sete anos. Houve agressões físicas e psicológicas, registro de boletim de ocorrência, prisão em flagrante e a concessão de medida protetiva. Ainda assim, a sensação de vulnerabilidade permaneceu por meses.
“Você não volta a andar tranquila de imediato. Você muda trajetos, evita lugares, passa a ter medo até de sair de casa”, relata. O processo de retomada da rotina levou mais de um ano, acompanhado por terapia para ela e para o filho. Ela já era CAC (caçadora, atiradora e colecionadora) havia cerca de dez anos, mas, após o episódio de violência, decidiu dar entrada no processo de porte de arma de fogo.
A decisão de solicitar o porte de arma veio depois, orientada por profissionais do clube de tiro que ela já frequentava.
O dono do clube de tiro falou que seria bom solicitar para eu ter uma forma de me defender, caso eu precisasse. A última coisa que a gente quer é ter motivos para utilizar essa arma na defesa pessoal. O medo de acontecer alguma represália, vingança comigo e com a família pesou para a decisão e decidir dar entrada ao processo, afirma.
O processo, segundo ela, foi longo e burocrático, como prevê a legislação – e que ela descreve como necessário. Foi realizada avaliação psicológica, testes teóricos e práticos, análise de antecedentes, comprovação de endereço, ocupação e, no caso do porte, a apresentação de provas que demonstrassem risco concreto à sua integridade.
“Não é simples, não é rápido e não é garantido. Tudo passa por análise. O porte tem prazo, precisa ser renovado e depende de justificativa”, explica S.C.
Além disso, ela aponta que outro fator que contribuiu na decisão da retirada do porte foi o fato de ter recebido o botão de pânico – enquanto o ex era monitorado via tornozeleira -, mas não se ter o retorno imediato por parte da força de segurança quando o mesmo disparava.
“Ele é acionado quando a pessoa vigiada se encontra próximo de você a uma determinada distância que o juiz estipula. Isso emite um alerta sonoro e a gente espera que, quando isso aconteça, a polícia entre em contato para perguntar se está tudo bem, ou então me informar pelo menos a que raio de distância que a pessoa está. Mas isso não é falado. Eu ouvia que eu estava dentro de um raio de segurança, mas, se estava dentro desse perímetro, qual o motivo do botão estar apitando? Essa informação não faz sentido”, destaca.
Teve uma vez que eu saí para jantar com a minha família, sentei no restaurante e ele começou a vibrar. Ninguém falava comigo, ninguém respondia as minhas mensagens. Quando consegui, me disseram que iria verificar e que a pessoa não estava atendendo ou respondendo… Não me interessava saber se a pessoa estava respondendo ou não eles, me interessava saber se onde eu estava era uma zona de risco. E essas informações não são passadas pra gente e isso gera uma insegurança muito grande quando isso acontece, relembra.
Hoje, ela segue frequentando o clube, cumpre a habitualidade exigida para atiradores esportivos e mantém a arma destinada à defesa pessoal separada da utilizada para treino. Em casa, o armamento fica guardado em cofre, fora do alcance do filho, hoje com 10 anos, que recebe orientações claras sobre segurança.
Vítima de tentativa de abuso sexual
A gestora Fernanda Moreira Sousa também teve a violência como mote para buscar mais informações sobre o tiro esportivo como fator de defesa pessoal. Ela foi vítima de uma tentativa de abuso, sendo imobilizada com o auxílio de uma arma, que ficou apontada para o rosto. Ela conseguiu sair da situação sem ferimentos, mas a experiência alterou sua percepção sobre risco e proteção.
Até o episódio, o tiro era algo distante, associado ao marido e a amigos. Depois da situação traumática, Fernanda procurou um clube, iniciou cursos voltados para mulheres, passou por diferentes espaços até se estabelecer no atual, onde afirma ter encontrado acompanhamento mais próximo durante os treinos. “O tiro exige controle emocional. Não é só técnica. Você passa a pensar mais nas suas atitudes porque sabe da responsabilidade envolvida”, afirma.
Ela conta que o processo de regularização também contrariou a ideia de facilidade frequentemente associada ao acesso às armas. “Tudo é documentado, analisado, nada acontece sem critérios. É um processo sério”, diz.
Fernanda não possui porte ou seja, não anda armada. Ela detém da posse. A arma registrada é vista por ela como um complemento, não como substituição da atuação do Estado. Ainda assim, afirma que a possibilidade legal ao armamento traz uma sensação de segurança, especialmente considerando que também atua na zona rural, onde situações de invasão de propriedade podem acontecer.
Ela é um complemento. Eu não lido com ela como se isso fosse algo que fosse me resguardar de todos os males, mesmo porque eu não tenho porte. Eu tenho que confiar no trabalho da polícia, mas com certeza essa possibilidade de a gente ter uma arma legalmente registrada traz sim uma segurança maior, destaca.
Ela afirma ainda que o estudo do tiro esportivo possibilitou-a ser uma pessoa mais observadora. Além de ser uma válvula de escape para lidar com os sentimentos. “Apesar do gatilho pelo o que passei, eu percebo também que o tiro esportivo, hoje, pra mim, vai também de encontro com um equilíbrio emocional. Me ajuda a reter emoções. E isso nos traz uma responsabilidade maior. Então, querendo ou não, pra gente fazer um curso, ter uma documentação que te dá direito a ter uma arma, as nossas atitudes têm que ser ainda mais pensadas.”
Crescimento
Tanto S.C. quanto Fernanda atuam no Clube de Tiro de Leder Pinheiro. Ele é especialista em Segurança Pública e servidor da Guarda Civil Metropolitana há 18 anos. Segundo ele, a presença feminina começou de forma tímida, muitas vezes acompanhando maridos ou parceiros que já praticavam o tiro esportivo.
“Depois, passaram a vir sozinhas, por interesse esportivo, por curiosidade ou por necessidade”, afirma. Hoje, cerca de 7% dos associados do clube são mulheres. Nas redes sociais, esse percentual é maior: aproximadamente 20% dos seguidores são do público feminino. Para Leder, a diferença revela interesse, mas também receio.
“Ainda existe a ideia de que o clube de tiro é um espaço exclusivamente masculino. Quando a mulher vem, conhece a estrutura, vê outras mulheres treinando, trabalhando, ela se sente mais à vontade”, explica. Atualmente, segundo ele, cerca de 90% dos colaboradores do clube são mulheres, o que contribui para um ambiente mais acolhedor desde a recepção até o acompanhamento na pista.
Desinformação contribui para julgamentos equivocados
Leder destaca que parte significativa das mulheres que procuram o clube busca informação antes de qualquer decisão. A desinformação, segundo ele, ainda é um dos principais obstáculos. “Muita gente acredita que ter arma é proibido no Brasil. Isso não é verdade. É uma atividade legal, regulamentada, com exigências claras”, afirma.
Para ele, essa percepção vem do efeito a longo prazo do Estatuto do Desarmamento e da forma como o tema foi tratado ao longo dos anos. “A campanha foi tão forte que ficou a ideia de proibição. Nosso trabalho acaba sendo duplo: além de ensinar o tiro esportivo, precisamos explicar a legislação”, diz.
Passo a passo
Também diferente do que muitos pensam, o acesso à arma de fogo passa por um critério rigoroso e até moroso chegando a quase seis meses para finalização. Para a posse, o interessado passa por avaliação psicológica, prova teórica e prática de tiro, apresentação de documentação pessoal e análise da Polícia Federal. O porte exige um novo processo, com testes mais rigorosos, comprovação de necessidade e análise discricionária do órgão responsável.
“Não existe urgência nesse processo. A primeira coisa que eu falo é: tenha paciência”, afirma. Ele também ressalta que o clube mantém padrões rígidos de segurança e que, desde o início das atividades, não houve registro de acidentes no estande.
No caso das mulheres vítimas de violência doméstica, Leder relata que algumas conseguiram o porte após apresentarem boletins de ocorrência, medidas protetivas e outros documentos que comprovavam risco real. Segundo ele, em relatos posteriores, muitas afirmaram sentir melhora significativa na sensação de segurança. “Não é sobre usar a arma. É sobre saber que existe um recurso legal e que você está preparada”, diz.
Mudança na abordagem = mais atrativo para as mulheres
O aumento da presença feminina também se reflete na participação em campeonatos e cursos. Há modalidades mistas e outras específicas para mulheres, com adesão que tem crescido nos últimos anos.
Para isso, ele realizou ajustes nas estratégias de comunicação. O clube passou a divulgar mais imagens e vídeos de mulheres treinando, desmontando armas e participando de atividades técnicas, o que, segundo Leder, gerou maior procura. “Quando elas se veem nesses espaços, percebem que também podem estar ali”, afirma.
Para S.C, Fernanda e outras mulheres que percorrem esse caminho, o tiro esportivo não é apresentado como solução única ou imediata para a violência ou para falhas estruturais da segurança pública. Ele surge como parte de um processo mais amplo de reconstrução da autonomia, mediado por informação, regulamentação e responsabilidade.
“A arma, sozinha, não resolve nada. O que muda é o preparo, o conhecimento e a consciência do que você pode ou não fazer”, resume S.C.
“Os bons pagam pelos maus. Porque quem tem uma arma registrada, fez tudo certinho, pagou tudo certinho e tá em dias com a Justiça, é o maior interessado em não ter problemas. Pela irresponsabilidade de pessoas que não estão preocupadas com isso, que não tiveram esse investimento, não separaram esse tempo de conhecimento, elas sujam os nomes de pessoas que andam corretamente”, aponta Fernanda.
“Eu já fiquei assustada com isso. O poder de saber que a arma de fogo tem na mão de uma pessoa errada. Isso assusta as mulheres. E só a consciência e o acesso à informação desmistifica isso. Foi o que aconteceu comigo: eu também tinha um preconceito em relação ao armamento, tanto é que eu nem pensava em entrar nesse universo, mas, hoje, eu vejo a necessidade do aprendizado e de saber como funciona. Até se o meu filho amanhã me trouxer essa pauta, eu preciso saber como vou lidar com isso. Eu acho que a gente tem que olhar pra esse olhar e não criar um problema”, finaliza.
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