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O que as derrotas de Iris Rezende têm a dizer ao Marconi Perillo de 2026

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A história, a rigor, se repete? A história não se repete. Os fatos, por mais parecidos que sejam, são sempre diferentes. A dialética de Heráclito é exatamente sobre isto. As águas, os homens e suas existências sempre têm temperos particulares.

Porém, no “18 Brumário de Napoleão Bonaparte”, Karl Marx, um autor espirituoso, escreveu que a história se repete duas vezes: como tragédia e, depois, como farsa.

Há, pois, a tragédia e como é contada. Veja-se o caso do massacre de poloneses em Katyn. Os soviéticos mataram cerca de 22 mil pessoas — entre civis (intelectuais) e militares. O objetivo era liquidar a elite polonesa. Stálin tinha aversão à Polônia.

Karl Marx e Ióssif Stálin: a tragédia e a farsa da política | Fotos: Reproduções

Então, a tragédia foi o massacre. A farsa se deu quando Stálin fabricou a história de que os poloneses haviam sido assassinados pelos nazistas da Alemanha de Adolf Hitler. Há livros, filmes (de Andrzej Wajda) e documentários a respeito de Katyn.

Na política de Goiás uma história está prestes a se repetir, ainda que sem tragédia? Como os fatos estão ocorrendo, e outros ainda não ocorreram — a eleição para governador vai ser disputada daqui a oito meses, em 4 de outubro —, o que vai se dizer a seguir não deve ser visto de maneira peremptória. Estamos no terreno da especulação, mas, examinando fatos recentes, sem excluir, é claro, a realidade.

Iris perdeu em 1998 para um amador

Retomemos 1998 — vinte e sete anos atrás. É muito tempo. Quase três décadas. Naquele distante ano, Iris Rezende era o favorito para governador, mas pesquisas qualitativas levaram a oposição a acreditar que, se bancasse um candidato novo, ainda que anódino, e se fizesse uma propaganda inteligente, poderia derrotá-lo.

Acreditando-se eleito, Iris Rezende não quis compor com o grupo de Marconi Perillo e, ao mesmo tempo, não operou para dividir a oposição. O poder gera pessoas que se consideram deuses invencíveis. Era o caso.

Marconi Perillo talvez tenha sido eleito mais pelos equívocos de Iris Rezende do que por suas virtudes — considerando que não tinha qualquer experiência administrativa, pois não havia sido nem mesmo vice-governador (o vice sempre acaba adquirindo experiência pela proximidade com o governador).

Em 2010, Marconi Perillo, agora com mais experiência política e a astúcia que o poder proporciona, começou a perceber que precisava interferir também no campo das oposições.

Com habilidade, o tucano se definiu como candidato e, de alguma maneira, operou para definir o candidato que queria enfrentar — Iris Rezende. Avaliava, como de fato ocorreu, que seria mais fácil derrotá-lo do que um candidato novo e sem nenhum ou pouco desgaste.

Em 2014, aconteceu a mesma coisa. Mais uma vez, Marconi Perillo, agora governador, operou para dividir as oposições — parte delas — e, de algum modo, contribuiu para a definição do adversário, o freguês Iris Rezende.

A primeira vitória de Marconi Perillo foi, por certo, um acidente. Tanto que o tucano superou o emedebista, no primeiro turno, por uma diferença de 1,68%. No segundo turno, a diferença subiu, por causa de apoios novos e da mudança da expectativa de poder, para 6,57 pontos percentuais.

A segunda e a terceira vitória de Marconi Perillo se deu, em parte, ao operar para “definir” — ou praticamente definir — o adversário. Iris Rezende nunca foi fraco política e eleitoralmente. Mas o tucano soube mapeá-lo — com pesquisas qualitativas — e, por isso, era o candidato que sempre queria enfrentar. Era derrotável. Porque havia perdido a conexão com os goianos de todo o Estado.

Depois de três derrotas, Iris Rezende, que era um político estadual, se tornou um político municipal — quer dizer, de Goiânia, da qual foi prefeito, bom prefeito, três vezes (sem contar a gestão da década de 1960).

Feitiço está virando contra o feiticeiro

Mas agora o feitiço parece ter se voltado contra o feiticeiro. A astúcia de Marconi Perillo — sem poder — parece ter cedido apenas à vontade ser candidato por vaidade e espírito de vingança contra aqueles que o derrotaram.

Daniel Vilela e Ronaldo Caiado: jogando com rara mestria na política de Goiás | Foto: Divulgação

Talvez por morar em São Paulo, tendo se distanciado da realidade goiana, Marconi Perillo parece que não está percebendo com a acuidade necessária o que está acontecendo. Enquanto tenta conseguir um vice e dois candidatos a senador — o que não tem sido fácil, até agora nenhum dos convidados atendeu aos seus clamores —, o tucano indica que não está entendendo o que está acontecendo à luz do dia, às claras.

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado — político presente, e não absenteísta, como Marconi Perillo —, é de uma habilidade rara. Primeiro, atraiu Daniel Vilela, em 2022, para o seu lado, e o colocou como vice.

A operação debilitou a oposição — cujo expoente era exatamente Daniel Vilela. Tanto que, em 2022, Ronaldo Caiado foi eleito, mais uma vez, no primeiro turno. O grupo de Marconi Perillo sequer conseguiu lançar um candidato a governador.

Para a disputa de 2026, enquanto Marconi Perillo age parecido com o jogador Walter, sempre fora de forma — quer dizer, “joga parado” —, Ronaldo Caiado e Daniel Vilela operam de duas maneiras.

Primeiro, Ronaldo Caiado e Daniel Vilela estão enfraquecendo as oposições. Por isso, a operação para conquistar o apoio do senador Wilder Morais e do deputado federal Gustavo Gayer, ambos do PL.

Wilder Morais vai se encontrar com o ex-presidente Jair Bolsonaro, na Papudinha, e certamente não vai voltar “papudão” da penitenciária. O que vai ouvir lá poderia saber se conversasse com Flávio Bolsonaro, o pré-candidato do PL a presidente da República.

Inteligente nos negócios, falta a Wilder Morais a astúcia dos políticos profissionais. Por isso, embora precise do bolsonarismo para respirar, ainda não entendeu que a prioridade dos Bolsonaros é eleger um senador em Goiás — Gustavo Gayer. Porque o jovem político é bolsonarista de verdade — quando o jogo é ruim e quando o jogo é bom. Enquanto um bebe vinho francês de 30 mil reais (e é um direito, pois o dinheiro é privado e não público), o outro sai às estradas e ruas, na chuva, para defender Jair Bolsonaro. Isto faz uma diferença imensa.

Então, está definido, só falta uma declaração pública — oficial — do bolsonarismo, que a chapa apoiada por Ronaldo Caiado terá Daniel Vilela para governador e Gracinha Caiado (União Brasil) e Gustavo Gayer para o Senado. O vice deverá sair do PSD — possivelmente será Adriano da Rocha Lima (na lista estão também José Mário Schreiner, Luiz Carlos do Carmo, Paulo do Vale, entre outros).

Havia a possibilidade de o PSD escapar para compor com Marconi Perillo. O sonho do tucano era ter o senador Vanderlan Cardoso na sua chapa, como representante do PSD. Agora, com a ida de Ronaldo Caiado para o partido, o sonho derreteu-se. O PSD não se tornou o segundo PSB.

Então, a ida de Ronaldo Caiado para o PSD tem reflexos nacionais e locais. A aliança que bancará Daniel Vilela ficou ainda mais forte, pois conta, desde já, com MDB, União Brasil, PL, pP, Republicanos, Podemos (deve indicar o suplente de Gracinha Caiado — que pode ser Luiz Carlos do Carmo ou Oídes José do Carmo), PRD, Solidariedade, entre outros.

Na prática, não sobrou nada de relevante para Marconi Perillo. Seu PSDB é um partido baleado em todo o Estado, com estrutura política reduzida. A única jogada relevante do tucano foi colocar sua pupila Aava Santiago no PSB, uma legenda, a rigor, sem a mínima expressão. Tanto que não tem chapa nem para deputado estadual nem para deputado federal.

A vereadora será candidata sozinha? Sagaz, a evangélica prêt-à-porter possivelmente terá de compor a chapa majoritária encabeçada por Marconi Perillo, como candidata a senadora ou vice-governadora. Os dois são muito ligados. Mas é falso — não há nenhuma evidência — que o tucano repasse a Aava Santiago um mensalinho. Pura maledicência não comprovável. A jovem, por sinal, é uma política séria, sem registro de envolvimento em falcatruas.

A terceira “tragédia” do tucano

Pode-se dizer, portanto, Ronaldo Caiado operou com tal eficiência que restou a Marconi Perillo as próprias sobras. O tucano está isolado — solamente só, ou melhor, com Eliane Pinheiro (reina no seu escritório), Jayme Rincón e Jardel Sebba. O trio parada dura é sua pilastra, mas não tem voto.

Ao definir sua aliança — uma das mais amplas da história de Goiás —, Ronaldo Caiado operou para definir o candidato da oposição, ou seja, Marconi Perillo.

O candidato que a base de Ronaldo Caiado quer enfrentar é exatamente Marconi Perillo. Porque sabe quão o tucano-chefe é vulnerável e, ao mesmo tempo, previsível.

O que se quer é derrotar Marconi Perillo, com o objetivo de “eliminá-lo” da política de Goiás — devolvendo-o, de vez, a São Paulo.

Então, retomando o início deste Editorial, é possível sugerir que Marconi Perillo é o novo Iris Rezende da política de Goiás.

Durante anos, usando o poder — a máquina pública —, Marconi Perillo operou, não para destruir Iris Rezende, e sim para enfraquecê-lo, com o objetivo de torná-lo seu freguês eleitoral.

Marconi Perillo já perdeu duas eleições para senador, com votações à beira do vexatório. Em 2018, ficou em quinto lugar, atrás de Vanderlan Cardoso, Jorge Kajuru — os dois eleitos —, Wilder Morais e Lúcia Vânia. Em 2022, foi derrotado pelo anódino Wilder Morais.

Até parentes sugerem que Marconi Perillo dispute mandato de deputado federal, para se recolocar na política de Goiás, mas ele insiste em disputar o governo. Ou seja, mesmo sem querer, está fazendo o jogo de Ronaldo Caiado e Daniel Vilela. Os dois querem e sabem como derrotá-lo.

A história não se repete. Mas há fatos — no caso, quase fatos — muito parecidos. Para Marconi Perillo está pintando a terceira tragédia, isto, uma nova derrota. As alianças de Daniel Vilela e as pesquisas de intenção de voto sugerem isto. O tucano está “encurralado” mas parece acreditar nas próprias fantasias e nas gestadas por aliados acríticos, como Jayme Rincón.

Leia mais: Entregas, segurança, crescimento econômico: Caiado pode ser o grande rival de Lula

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