O que parecia impossível virou realidade. No bairro Caiçara, Cristina Nunes da Silva, de anos, os irmãos e primos viveram um reencontro histórico. Mais de 75 anos depois da separação dos 11 tios, ainda na juventude, enfim a família conseguiu realizar o sonho dos irmãos de estarem juntos novamente. Alguns deixaram Alagoas em busca de sobrevivência e nunca mais se viram. O reencontro emocionou as mais de 20 pessoas que aguardavam ansiosas pelo momento. A história começa décadas atrás, quando a vida no sertão alagoano apertou de vez. Sem opções, os irmãos seguiram rumo ao Sul. Ao chegarem ao Paraná, a realidade impôs o corte mais duro. Cada um precisou seguir sozinho. A matriarca ficou com uma filha, depois seguiu com três dos filhos. Os demais “foram para o mundão”, como a própria família define. Os nomes? Afonso, Cícero, Otacílio, Martins, Lindinalva, Maria, Noel, Francisco, Severino e Antônio Nunes da Silva. Deles, só Noel continua vivo. Hoje tem 96 anos. Entre os que seguiram caminhos diferentes estava o pai de parte da família que se encontrou neste final de semana, Antônio. Ele nunca escondeu o desejo de rever os irmãos. Falava disso com frequência. Tentou procurar. Os filhos também tentaram e nada. Sem registros, sem redes sociais, sem pistas confiáveis. Com o tempo, os irmãos foram morrendo de velhice. O sonho não se realizou em vida. Os filhos herdaram essa missão. Três núcleos familiares passaram a procurar uns pelos outros, sem saber que faziam a mesma coisa ao mesmo tempo. A virada veio de forma improvável. Uma ligação e a desconfiança de um golpe. “Foi emocionante, não tenho palavras para descrever. Teve uma época que começamos a procurar na internet e nada. Achei que não iria porque são muitos anos. Ao total dá mais de 70 anos que os irmãos se afastaram. A gente achou que não iria encontrar. Mas o que achamos que é impossível, pra Deus não foi”, comenta Cristina. Em poucos dias, a árvore genealógica espalhada pelo Brasil começou a se recompor. Parentes em Rondônia, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Bahia, Piauí e Alagoas. Gente que nunca se viu, mas que compartilhava a mesma origem e a mesma saudade. Um dos personagens centrais dessa busca é Givonaldo Nunes, de 62 anos, morador de Guajará-Mirim, em Rondônia. Filho de um dos irmãos que saiu de Alagoas ainda jovem, ele relata que a procura começou em 2018. Encontrou parentes do lado materno, perdeu outros pelo caminho, esbarrou até em gente pedindo dinheiro para “investigar”. Quase desistiu, mas resolveu dar mais uma chance e foi aí que tudo aconteceu. “Sou filho do Afonso Nunes da Silva e Janete Maria de Jesus. Somos de Alagoas, cidade de Mata Grande. Chegamos em Rondônia em 1973. Meus pais faleceram e tinham uma vontade muito grande de encontrar os irmãos, mas não foi possível porque ele faleceu em 2001. Sou grato por tudo isso que está acontecendo. Desde 2018 tenho uma luta muito grande para encontrar os meus primos. Eu pensava que não encontraria tios, mas tem um Noel de Corumbá.” Cristina é a filha mais nova de Antônio. Conta que recebeu um telefonema de uma pessoa e começou a fazer perguntas. No primeiro momento, também achou que era golpe. A gente ficou sem entender no primeiro momento, até que o primo explicou. “Não lembrava muita coisa. Ele contava muitas histórias dos irmãos, mas não lembrava. Para nós foi um presente que a gente não esperava. Era um sonho do nosso pai, assim como um sonho do pai do Givonaldo. Eles não estão presentes, mas acredito que felizes que nos encontramos finalmente. A gente tá fazendo o que eles tanto sonhavam.” Já Sueli Nunes, irmã de Cristina, resume o sentimento com uma imagem simples: “fiquei sem chão”. Um dos tios ainda vivos, Noel, recusava voltar à terra natal por causa do sofrimento vivido ali. “Meus tios queriam se reunir em vida e não foi possível. Dia 4 de janeiro, a gente conversando de madrugada, o filho do meu tio Noel falou que a gente podia levar ele pra terra onde ele nasceu. Deus foi tão bom que em menos de 1 mês disso ele presenteou com uma família imensa. É muito gratificante. A minha maior felicidade é levar eles até meu tio e ver a felicidade dele. Não sei se estou flutuando ou anestesiada. Meu pai falava, quando a gente era mais jovem, de vender algo pra ir procurar os irmãos.” O encontro de Noel com os sobrinhos aconteceu um dia depois do restante da família, em Campo Grande. Todos partiram para Corumbá para viver a última etapa do sonho. Noel ficou em choque, mas logo foi só alegria.