Professora de Mato Grosso do Sul, Letícia Couto Garcia ganhou prêmio internacional por uma iniciativa que envolve o povo indígena Kadiwéu e árvores pau-santo (da espécie Bulnesia sarmientoi ). Junto a outros pesquisadores da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Letícia fez uma expedição para plantar mudas na Terra Indígena que pertence à etnia e fica no município de Miranda. Os exemplares foram cultivados durante cerca de 40 anos no Laboratório Ecologia da Intervenção, que hoje a professora coordena na instituição onde trabalha. Foram plantadas cerca de 400 árvores no ano passado. Durante a expedição, Letícia falou sobre como o projeto se conecta e ajuda a comunidade. “Dentre as espécies de interesse da comunidade Kadiwéu, o pau-santo se destacou por ser de grande importância socioeconômica cultural para a fabricação de peças de cerâmica tipicamente envernizadas com resina obtida a partir do cozimento do lenho da árvore. A resina é usada para dar a cor preta no grafismo das cerâmicas elaboradas pelas mulheres do povo Kadiwéu, é um patrimônio do Pantanal, do Chaco e de Mato Grosso do Sul”, disse. O pau-santo é nativo da América do Sul e venerado como planta sagrada por diversas etnias. Sua madeira aromática é utilizada em rituais religiosos para purificação energética e tem propriedades calmantes. A espécie corre risco de desaparecer e integra a Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), o que reforça a importância do trabalho feito em Mato Grosso do Sul. A premiação - O prêmio foi concedido pela CoR (sigla para Cultures of Resistance), entidade internacional fundada pela diretora de cinema brasileira Iara Lee em 2020. A UFMS divulgou a honraria nesta sexta-feira (6). “É uma mensagem direta de incentivo para as comunidades envolvidas, aos gestores e aos nossos estudantes, professores e técnicos que apoiam projetos como esse e que fazem parte da cultura da resistência, auxiliando na luta pela preservação da identidade cultural, das tradições brasileiras, com ações contra o desmatamento e a perda de espécies”, frisa Letícia. Não é a primeira vez que a professora recebe um prêmio. Em 2021, ela foi contemplada pelo Mulheres na Ciência, concedido pela L’Oréal, Academia Brasileira de Ciências e Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Outros educadores, além de muralistas, dançarinos, e agroecologistas, por exemplo, de países como Sudão, Bolívia, Irã, Palestina e Malauí, estão entre as demais pessoas já premiadas. Letícia e o Laboratório Ecologia da Intervenção receberam US$ 1 mil em premiação monetária. O valor foi usado para comprar cercas de arame para proteger mudas e evitar que os animais comessem suas folhas durante o crescimento, além de caixas de papelão para afastar outras plantas. O grupo também investiu em placas e marcações, marretas, utensílios para o viveiro e impressão de mapas.