Enquanto o mundo conhece e reconhece mais a cultura latino-americana, o céu de Campo Grande é colorido pela maior representante do "tempero latino". A arara-canindé está presente do Panamá à Argentina, passando por países como Colômbia, Guiana, Equador, Peru, Bolívia e Paraguai. No Brasil, está nas regiões Norte e Centro-Oeste, além de estados como Bahia, Minas Gerais e São Paulo. Mesmo assim, foi na nossa cidade que ela virou símbolo oficial e protagonista de um dos mais consistentes projetos de monitoramento urbano da espécie. Conforme esclareceu o Instituto Arara Azul, ao contrário do que muitos imaginam, a espécie, cientificamente chamada de Ara ararauna, não está ameaçada de extinção. Os números explicam por que a ave chama tanta atenção: são mais de 400 ninhos cadastrados e mais de 1.200 filhotes marcados ao longo dos anos. Só no projeto Aves Urbanas já são mais de 350 ninhos naturais monitorados, a maioria instalada em troncos de cinco espécies de palmeiras mortas espalhadas por quintais, avenidas, calçadas e parques. Cerca de 54% ficam dentro ou próximos de áreas verdes. A presença das araras na cidade começou a ser acompanhada em 1999, após um período de estiagem severa, desmatamentos e queimadas no interior. Grupos que vieram de Terenos chegaram à Capital em busca de alimento. Parte seguiu para municípios como Ribas do Rio Pardo e Três Lagoas, mas outra parte permaneceu. Desde 2002, a espécie é considerada comum em Campo Grande. Com o tempo, a arara-canindé deixou de ser apenas visitante ocasional e passou a integrar políticas públicas. Em 2015, foi instituída como Ave Símbolo do Município. Já no ano de 2018, lei municipal proibiu o corte ou remoção de árvores que abriguem ninhos da espécie. Em 2021, a cidade foi oficialmente reconhecida como Capital das Araras e instituiu 22 de setembro como Dia Municipal de Proteção das Araras. Por não ser espécie ameaçada e apresentar sucesso reprodutivo na área urbana, o Instituto Arara Azul não recomenda a instalação de ninhos artificiais. A intervenção pode desequilibrar o ecossistema. A orientação é outra: plantar árvores frutíferas, que garantem alimento, e palmeiras, que no futuro podem servir de abrigo natural. Além das araras-canindé, o projeto também monitora araras híbridas, resultado do cruzamento com araras-vermelhas. Entre mitos e dados científicos, o fato é simples: a arara-canindé é latino-americana por natureza, urbana por adaptação e monitorada por estratégia de conservação. Em Campo Grande, ela não é rara. É parte da paisagem e da identidade.