Agenda de leituras para 2026 de escritores, intelectuais e jornalistas (Parte 7)
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Carlos Willian Leite
É porta, jornalista e editor da “Revista Bula”
Este programa nasce antes da leitura — como deve Mser. Ele se apoia no que a crítica já acumulou, no que os leitores contam, no que a história literária deixou como rastro e no modo como certos livros reaparecem, voltam à circulação, ganham novas edições, novas traduções, novo fôlego. Parte do prazer está aí, em me aproximar do que já vem com mito, com rumor, com reputação e descobrir, página a página, se tudo isso se sustenta.
A França abre o ano com barulho de plateia e com um daqueles mitos da literatura contemporânea. Emmanuel Carrère é desses autores que publicam como quem estreia filme. O livro sai, o país comenta, o lançamento vira ponto de encontro, lota livrarias, shoppings e feiras literárias. “O Adversário”, na tradução de Mariana Delfini, carrega essa aura de grande lançamento no Brasil em 2026. Vou lê-lo com a curiosidade de ver como ele encosta o texto no real e, mesmo assim, faz o leitor sentir suspense, culpa e vertigem — como se o fato ainda pudesse desviar e ele, de alguma forma, quisesse nos punir.
Com Annie Ernaux eu chego sem certeza, e não faço questão de disfarçar. “Os Armários Vazios” entra como prova de fogo. A escrita dela é tão crua, tão direta, que às vezes me dá a impressão de uma verdade difícil de acreditar, embora ela afirme que é tudo autobiográfico. Há uma passagem de outro livro que me ficou atravessada, um aborto seguido por uma pizza, e aquilo não bate no meu senso de vida real. Em 2026, eu leio mais para decidir com honestidade se ela é a genialidade que me desconcerta ou um pacto que eu não consigo assinar por inteiro.
E já que corpo e tempo estão sobre a mesa, vem “A Carne”, da espanhola Rosa Montero. A premissa tem coragem e malícia. Soledad, aos 60, contrata um gigolô de 32 para acompanhá-la à ópera e ferir o orgulho de um amante que a abandonou. Só que a noite perde o controle: um episódio violento altera o rumo, e a relação que nasce daí tem calor, perigo e uma espécie de raiva luminosa. Montero escreve com erotismo e humor, mas também com a mão firme de quem não desvia da passagem do tempo e do medo da morte.
No mesmo eixo afetivo, “As Horas Frágeis”, de Virginie Grimaldi — de quem li “O que Resta de Nós” — me chama por uma delicadeza quase visceral. É literatura que fala da dor doméstica sem transformá-la em vitrine. E “Onde os Cães Latem pela Cauda”, de Estelle-Sarah Bulle, francesa com raízes caribenhas, faz um relato sobre família, herança e pertencimento. Não é memória descartável; é aquele tipo de memória que vira matéria, faz parte das pessoas e exige resposta.
Paris aparece como lenda que continua iluminando. “Meu Ano em Paris com Gertrude Stein, Uma Ficção”, de Deborah Levy, escritora britânica nascida na África do Sul, volta a um dos centros nervosos dos chamados anos dourados. Stein não foi só uma autora; foi o farol de uma geração. A casa dela funcionou como sala de estar da literatura — festa, conversa, disputa, formação — e escritores como Hemingway circulavam por ali como quem procurava um bar. E há Alice B. Toklas, companheira decisiva, que a própria Gertrude Stein descreve como uma espécie de general doméstico, personagem real e lendária ao mesmo tempo.
O México chega em duas frequências bem diferentes. “Trilogia Mexicana”, do mexicano Yuri Herrera, tem fama de texto curto e afiado, capaz de falar de poder, violência e fronteira sem levantar a voz e sem cair no lugar-comum. Alguns comparam o autor ao salvadorenho Horacio Castellanos Moya. “A Tumba”, do também mexicano José Agustín, vem em outra frequência: juventude insolente, classe, provocação, um romance que não quer ser virtuoso; quer ser verdadeiro no modo bruto, como fez o brasileiro José Falero em “Os Supridores”.
Do Caribe, “A Música em Cuba”, do cubano Alejo Carpentier, na tradução de Gênese Andrade, me interessa como leitura de ouvido. Há países que se entendem também pelo som, pela mistura, pela genealogia de ritmos que carregam história escondida. E a ideia de mundo interligado se amplia com “Navegadores”, da norueguesa Erika Fatland, uma travessia pelo universo da língua portuguesa no Brasil e fora dele. O livro caminha por territórios onde a presença portuguesa é lembrança distante e faz uma pergunta incômoda — mas necessária — sobre impérios, legado e consequências que continuam agindo no presente.
Do Chile, “O Obsceno Pássaro da Noite”, de José Donoso, entra como aposta alta. É desses romances que carregam a fama de meio século. Não se lê no automático. Se a lenda estiver certa, o livro não termina quando a gente fecha. E há um intervalo de proximidade humana que me importa muito. “Julio Cortázar e Cris”, de Cristina Peri Rossi, uruguaia radicada na Espanha, promete um Cortázar com carne e voz, fora do pedestal, no convívio, no humor, no desejo. E Cortázar, para mim, vem sempre com histórias coladas. (Euler de França Belém me conta que o autor do “Jogo da Amarelinha” tentou um relacionamento com a poeta e prosadora. Ela disse que sua vibe era outra. Ficaram amigos para sempre.)
Reinaldo Moraes, o icônico escritor paulista, conta uma história. Certo dia, em Paris, ele e amigos descobriram onde ficava a casa de Cortázar e foram até lá, meio devotos, meio sem noção. Cortázar estava saindo, conversou, mandou anotarem o telefone e disse para ligarem depois. Eles celebraram a cena num bar como quem segura um troféu. Quando ligaram, tempos depois, o número não existia. É do tipo de episódio que parece inventado, mas tem cara de Cortázar: uma realidade com gosto de pegadinha.
Portugal comparece com “O Diabo”, do português Gonçalo M. Tavares. A presença do diabo ali funciona menos como criatura folclórica e mais como princípio de desordem, uma força que encosta no cotidiano e abre rachaduras, fazendo a gente olhar para as pequenas negociações morais de todo dia com desconforto e ironia. Para manter a mente bem desperta no meio da ficção, eu levo “A Língua que Resta”, do italiano Giorgio Agamben. Lerei a contragosto, mas um amigo querido me disse que é obrigatório. “Um livro que afina o ouvido para a linguagem e para o que sobra quando a palavra falha, quando a história pesa e quando o pensamento precisa caminhar sem atalhos”, escreveu ele numa dedicatória de uma edição francesa que me deu. Como não leio francês, vou esperar a edição em português.
A Ásia aparece em duas notas íntimas. “Kitchen”, da japonesa Banana Yoshimoto, volta para mim também por uma história editorial: ficou fora de catálogo durante muitos anos, sobrevivendo quase como livro contado, recomendado, passado adiante como segredo. Agora reaparece, e eu quero encontrá-lo com calma, entendendo por que tantos leitores o guardaram como abrigo para o luto e para a reinvenção da vida cotidiana. “O Afinador de Pianos”, do taiwanês Chiang-Sheng Kuo, traz a música como arquivo de uma existência: um instrumento que guarda perdas, expectativas, recomeços e que, às vezes, sabe mais da gente do que a gente mesmo.
O Brasil ocupa o centro por mais de um caminho. “Toda Poesia de Augusto dos Anjos” volta porque eu já li Augusto inteiro, mas agora eu quero reler com o estudo crítico de Ferreira Gullar. Para mim, Gullar é o maior poeta brasileiro de todos os tempos, acima de Drummond e Bandeira. João Cabral, eu sei que é altar para muitos, mas nunca foi o meu. Essa edição, portanto, não é repetição; é conversa nova, com um olhar crítico que eu respeito como poucos.
“Noitada”, de Reinaldo Moraes, chega cercado de espera. Há livros que o público aguarda como se aguardasse um feriado prolongado. Reinaldo é ídolo de uma geração, autor do lendário “Pornopopeia”, e este romance vem, não como lançamento, mas como acontecimento. E há uma homenagem em vida que dá cor a tudo isso. No fim dos anos 70, ele em Paris e Ana Cristina César em Londres, eles se encontraram e ela escreveu um verso que ficou como senha afetiva e literária de uma geração, “Ah, Reinaldo, a paixão é uma fera que hiberna precariamente.” Então eu vou ler “Noitada” com prazer declarado e com atenção máxima. Sou realmente fã do Reinaldo, uma simpatia, uma cara absurdamente simples — e fabuloso como escritor.
“Polaquinha”, de Dalton Trevisan, entra por acerto de repertório e por falha de caráter literário. Eu li pouco dele, pouco demais. Ele é um dos heróis do escritor Solemar Oliveira. Sei que este é um livro fundamental dentro da obra e que retorna em nova edição. Quero chegar a Trevisan com calma, sem pressa, entendendo por que ele corta tanto e por que continua cortando. E há um caso especial — mas do autor, não da lista. “O Wikiota”, de Ademir Luiz, é o único livro dele que eu ainda não li. Eu tive a oportunidade de ler antes e preferi não ler. Quero encontrar já a versão final, o livro definitivo, do jeito que ele decidiu publicar. E entro nessa leitura com uma confiança rara. Tenho certeza de que será uma das grandes revelações do Brasil e que vai colocar o Ademir definitivamente no cenário nacional.
Este programa é vivo e pode ganhar desvios ao longo do ano. O núcleo, porém, está dado: vários países, várias temperaturas, alguns clássicos, alguns retornos, algumas estreias sentidas como estreia. Se 2026 terminar com o meu ouvido mais fino para a linguagem e com mais coragem para encarar a complexidade sem reduzir tudo a fórmula, então terá sido um ano bem lido.
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Euler de França Belém
Jornalista
Um alerta: não leia este texto. Porque tem mais de 40 mil caracteres. Os responsáveis pela lista gigante são, não eu, e sim a escritora e tradutora Flavia Stefani e o jornalista e tradutor Italo Wolff, que a cobraram.
Camaradas vermelhistas e verdoengos, a minha lista é grande e, por isso, não passa de uma carta de intenções. É tão confiável quanto o narrador Bentinho, de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, o magno filho de Shakespeare na América Latina. É penelopiana, porque, ao longo do ano, será modificada. As biografias de Carlos Lacerda, por Mário Magalhães, e de Leonel Brizola, por Karla Monteiro, quando saírem, passarão à frente dos demais livros arrolados.
Fico a pensar: se realmente estou decidido a ler todos os livros citados neste listão, material para 969 teses de doutorado matusalêmicas, não poderei frequentar cafés com os amigos Candice Marques de Lima, Reinaldo Barreto, Marcelo Franco, Sinésio Dioliveira, Nilson Gomes, Italo Wolff, Flavia Stefani, Ademir Luiz, Cilas Gontijo, Sérgio Murilo, Antônio Luiz de Souza, Giovanna Campos, Ton Paulo, João Paulo Alexandre, Augusto Diniz, Halley Margon, Irapuan Costa Junior, Salatiel Correia, Vilma Barbosa, Andréia Rocha, Henrique Pandim, Ana Paula, Sebastião Tejota, Cezar Santos, Patrícia Moraes, Herbert Moraes, Rodrigo Zani, Lucas Ribeiro, Nanci Melo, Hélverton Baiano, Marina Freitas, Vilmar Rocha, João Paulo Teixeira, Carlos Willian Leite. Café: onde? No Rensga Café ou na Livraria Palavrear. O que fazer? Optar pelo café, quem sabe. Porque o café, como Balzac e Madame de Stäel, não passará.
Nada entendo de espiritismo, por isso gostaria de saber se mortos leem livros. Se a resposta for sim, tenho de aderir ao mundo espiritual o mais rápido possível. Ops: é claro que não quero morrer agora ou tão cedo. Falo da morte para esconjurar a Velha Senhora.
Quando adquiro um livro e demoro a lê-lo (ou nem o leio), sinto que estou pecando. O católico da infância, que fez primeira comunhão, resiste em mim.
Guimarães Rosa, Carlos Lacerda e Brizola
O primeiro livro da lista é “Guimarães Rosa — Biografia” (Nova Fronteira), de Leonencio Nossa. Trata-se da primeira grande biografia do autor de “Sagarana” e “Grande Sertão: Veredas”. O livro ainda não foi publicado, mas já pode ser encomendado nos sites das livrarias (comprei um exemplar — informaram que chega em abril). O autor, jornalista experimentado, escreveu a melhor biografia de Roberto Marinho, o empresário que consolidou “O Globo” e criou a TV Globo.
Estarei concentrado, na Granja do Pé Torto Arado, para a leitura do livro de Leonencio Nossa sobre Guimarães Rosa. Espero que Neymar não apareça para atrapalhar. Mas, se der as caras, oxalá não caia no lago. Mas, se cair, não tem problema: carpa não é tubarão nem Camilo Zúñiga Mosquera.
Mário Magalhães deve pôr nas livrarias o primeiro volume de sua esperada biografia de Carlos Lacerda em março. Então, mando parar as impressoras, até os prelos, para ler a história do jornalista, político e editor (criador da Nova Fronteira). Ele tinha vocação para general-civil? É o que parece. Apoiou a dita em 1964 e a dura o engoliu em 1968. O general-presidente Costa e Silva não era “tolerante”, ao contrário de Castello Branco.
Não devo perder a biografia de Leonel Brizola — goste-se ou não, é um grande político — que está sendo escrita pela jornalista Karla Monteiro (autora de uma biografia magnífica do jornalista e empresário Samuel Wainer).
Li, n’algum lugar, que Paulo Roberto Pires — autor de uma biografia decentíssima de Jorge Zahar — planeja publicar uma biografia de Millôr Fernandes. Sairá pela Editora Todavia. O projeto tem o nome — e não deverá, por certo, ser o título do livro — de “Millôr do princípio ao fim”. Pelo menos é o que figura na internet.
A biografia de Millôr Fernandes, se for mesmo lançada em 2026, saltará para a pole position. Afinal, era filósofo do humor, crítico ácido de política, estrela de “O Pasquim”, cartunista, chargista, tradutor etc. Se me disserem que se candidatou a Deus, não duvidaria: tudo é possível. Eu votaria nele.
Roberto Fleury, Paulo Bertran e Gabriel Nascente
Li o conto “O Poço”, do livro “Cemitério de Gritos — Contos Fantásticos”, de Roberto Fleury Curado. O autor morreu aos 56 anos (viveu acamado por um bom tempo). Vou ler o livro todo, recomendado por Bernardo Élis, autor do prefácio.
Diz o autor de “Veranico de Janeiro” que “O Poço” é um “belíssimo conto”. “Uma verdadeira sinfonia ao coito, onde se nota um ‘miserere’ de sentimento de pecado, de sentimento de complexo de Édipo, de sentimento de culpa por desejarmos a mãe ou o útero materno, o que é mais amargo e mais terrível de tudo.” Miguel Jorge, o bueno prosador, também aprecia a prosa de Roberto Fleury Curado.
Só conhecia o excelente historiador Paulo Bertran. Por isso fiquei surpreso ao encontrar, no sebo Oliveira’s Livraria, o livro “Sertão do Campo Aberto”. Trata-se de um poeta de primeira linha, que põe a dialogar o moderno e o tradicional. Com uma graça infinita, diria David Foster Wallace.
Não há dúvida de que Gabriel Nascente é o maior poeta de Goiás, ao lado de Afonso Felix de Sousa, Valdivino Braz e Yêda Schmaltz (esta e Darcy Denófrio são as minhas poetas preferidas do Estado do Cerrado. Ao lado de Braz, claro). Dele apresenta-se, na minha escrivaninha (palavra tão antiquada quanto bela, não é?), “Os Aventais da Púrpura”. “Para/ esculpir poemas/ levo sonhos na bagagem”, nos diz o bardo do Cerrado para o mundo.
Estou relendo “Notas de um Leitor de Província”, de Oscar Sabino Júnior (goiano-mineiro). Em 1948, escreveu um texto curto mais agudo sobre James Joyce, com o título de “Retrato do artista adolescente”.
Oscar Sabino Júnior examina, em ensaios curtos, a obra de Hugo de Carvalho Ramos, José Décio Filho, Aidenor Aires (um poeta que está sempre me convocado, dada sua excelência), Carmo Bernardes, Alaor Barbosa, Bernardo Élis, Afonso Felix de Sousa, entre outros.
Fico a pensar: um crítico tão bom e atento quanto Oscar Sabino Junior deixou (mais) inéditos em suas gavetas? Ele morreu em 1989, aos 68 anos. A edição do livro que leio é de 1991.
Gilson Cavalcante e Adalberto de Queiroz
Gilson Cavalcante é um poeta extraordinário — um filho rebelde de Mario Quintana e Manuel de Barros. Um mestre das palavras dançantes. Sua poesia tem a ginga do forró e o balanço do samba.
“O Bordado da Urtiga” é um dos mais belos livros de poesia que já li (o título, intrigante, me pôs descalço ante a sapiência do bardo; por sinal, eu e o poeta andamos descalços nas ruas de Porangatu, mais Ítaca dele do que minha). O prefácio é do poeta Carlos Willian Leite (de quem li uma obra inédita de excelente qualidade).
Por que rebelde? Porque Gilson Cavalcante bebe em várias fontes, inclusive na mina inesgotável de Carlos Drummond de Andrade (e até nos simbolistas), mas é fiel apenas a si mesmo. “Pecar, pecar,/ pecar até arder em chamas./ Pecar pelo que chamas/ e nunca chega.// Pecar ao ponto/ do carbono original/ que a carne nutre/ no paraíso das delícias.// A ser vício da serpente/ desfruto da árvore da volúpia/ cabelos, cabides, perfume e ócio.//. Pecar é meu divórcio”. Adão e Eva somos nós, desde o início — pecados de uma civilização (ocidental) mui antiga.
Leio (ou releio) “As Lâminas de Zarb” com prazer e atenção. Valdivino Braz é um dos poetas que mais sabem brincar com as palavras (os poetas são os únicos seres que “escravizam” palavras e elas gritam de prazer). Quando leio sua poesia, o que faço sempre, percebo como sabe fazer as palavras rirem, até gargalharem, e como sabe fazê-las chorarem e refletirem. E, o que é relevante, sem melodrama.
Há outro livro esplêndido de Valdivino Braz. Trata-se de “Arabescos Num Chão de Giz”. Costumo dizer que é sua “Divina Comédia”.
Leio, sorvendo aos poucos, “Poesia Reunida”, de Maria Lúcia Alvim. Me dei uns bons cascudos. Por que só fui conhecer a poesia, a grande poesia, da fabulosa mineira em 2025? (Não fosse o presente do amigo Bonny Fonseca, continuaria, para mim, uma poeta esquecida.) Mais cascudos, não na cabeça, que é dura, e sim no cérebro, campo das percepções, sensibilidades e sonhos.
Como não ler a excelência do livro de outro grande poeta, que o país precisa descobrir, Adalberto de Queiroz. Fica-se com a impressão de que o autor de “Duro Feito Pedra, Frágil Feito Pólen” quer ser fanático — sim, religioso conservador —, mas a poesia o resgata e o devolve à beleza (e liberdade) do mundo. Assim como fizeram com John Donne, William Blake e Gerard Manley Hopkins — reverendos, de certo modo, “pagãos”.
Estou lendo, vagorosamente, “Viagens às Terras Goyanas (Brazil Central)”, de Oscar Leal. O carioca “aportuguesado” andou pelas terras de Goiás no século 19 (1882) e contou, de maneira esplêndida, o que viu e sentiu. Ático Vilas Boas o apresenta como o “último andarilho romântico que nos visitou”.
Oscar Leal, segundo Ático Vilas Boas, “pode ser considerado o pioneiro das reportagens sobre o Centro-Oeste”. O inventor, quem sabe, do novo jornalismo no Brasil. No mundo deve ter sido Heródoto.
Darcy Denófrio, Elias Antunes e Marina Canedo
Leio, cada vez com mais entusiasmo, a poesia de Afonso Felix de Sousa. Então, para entender até suas filigranas, vou ler “A Obra Poética de Afonso Felix de Souza — Dois Estudos”, de Darcy França Denófrio. A professora da UFG é uma das principais, senão a maior, intérpretes da poética do bardo goiano. Assim como da poesia de Gilberto Mendonça Teles.
Elias Antunes é um poeta que me interessa. Por isso vou ler “Tempo Superficial”, de 1998. Porque já estou lendo-relendo o último lançamento do autor — “Um Caminho na Terra” — e percebi uma, digamos, espécie de corrente — continuidade — na sua arte, cada vez mais refinada. “Work in progress”, diriam Joyce e, sobretudo, Pound.
Nascida em Goiânia, Terezinha Fonseca Crumb é autora de excelentes contos (“A Moda da Casa: Contos Goianos”). Agora, confiando na sua prosa saborosa e precisa, coloco na minha lista “Entreatos — Romance de uma Larga História”.
O prefácio é convidativo: o livro “recria, no gênero de ficção histórica alternativa, uma sucessão de acontecimentos gerados à luz dos chamados ‘anos de chumbo’”. A autora deu aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro e The City Universiry the New York.
Marina Teixeira da Silva Canedo, poeta de formação clássica — filha dos gregos e latinos —, não ignora, porém, a força do modernismo, que, por sinal, é mais filho da tradição do que imaginam seus apologetas. “Olho de Outono” é um grande livro e não merece ser deixado de lado. Pelo contrário, precisa ser lido com atenção. É belo.
Yêda Schmaltz, Jô Sampaio e Delermando Vieira
Não há releitura — só leitura —, já disseram tantos. Borges, o Jorge Luis, na comissão de frente. Por isso, com raro prazer, releio o livro “O Peixenauta”, de Yêda Schmaltz, uma das maiores poetas brasileiras. Meu exemplar mostra a data de 1975. Transcrevo “Tempo de Semear”: “Procuro o Computador/ que saiba computar/ uma flor./ O veludo, a cor/ e o perfume/ na atmosfera./ Mas, antes de tudo,/ a Primavera.// Teça-me uma flor,/ ó Deus Computador!/ “Se tudo o que é bom/ é feito/ de espera/ e de dor,// na Primavera/ é terrível/ o abrir-se da flor.”
Aprendi a ler Yêda Schmaltz lendo sua poesia diretamente. Seu poemário é complexo e, aqui e ali, precisa de ajuda de críticos perceptivos.
Por isso recorri à exegese de Darcy França Denófrio, uma das grandes intérpretes da obra da autora de “Prometeu Americano”.
Em seguida, comecei a ler “Uma Escrita Sustentada Pela Paixão — A Poesia Erótica de Yêda Schmaltz”, de Paulo Antônio Vieira Júnior. É uma crítica à altura da poética de Schmaltz. Um livro de primeira linha. É o que se chama de gol de placa.
Na linhagem de Mário de Andrade, Jô Sampaio é tripla. É prosadora, poeta e crítica literária (tem feito muito pelos escritores goianos). Está em minhas mãos, para leitura imediata, “As Duas Arcas”, coletânea de contos. Aidenor Aires nota que há crônica nos contos e há conto nas crônicas.
Um poeta que me surpreende é Delermando Vieira. O refinamento de sua poética impressiona e é difícil filiá-lo a uma tradição. Porque é estranho, diferente.
Dylan Thomas, William Blake, John Donne, Jorge de Lima ecoam em sua poesia? Não dá para saber.
O que se percebe, de cara, é a singularidade do poeta. Para ele, as palavras, o manejar dançante delas, são superiores às ideias (temos, aí, um filho de Mallarmé). Trecho inicial de “O semeador”: “No verão ele semeava a lavoura de seu medo,/ suas renúncias e seus castigos,/ embora não sabendo que é na luz que se acendem/ e se revelam as sílabas do trigo”. Da obra-prima “Dos Mares Nunca Dantes Navegados”. É um livro belo. Belíssimo. Sempre pega — agarra — o leitor desprevenido.
Brasil Nunca Mais, o SUS e Anne Applebaum
“Nunca Mais — Os Bastidores da Maior Denúncia Contra a Tortura já Feita no Brasil”, de Camilo Vannuchi é crucial para quem, como eu, tem o hábito de pesquisar sobre a ditadura civil-miliar. O projeto Brasil Nunca Mais, que resultou num livro-documento, foi decisivo para explicar que o sistema autoritário instaurado pelo golpe de 1964 roçou, em sua brutalidade, ao totalitarismo.
A história tem meias voltas. Mas é preciso operar, via instituições, para impedir novos golpes de Estado e, por consequência, ditaduras. As prisões de golpistas têm um efeito pedagógico extraordinário.
Li 150 páginas de “Utopia Autoritária Brasileira — Como os Militares Ameaçam a Democracia Desde o Nascimento da República Até Hoje”, de Carlos Fico. Da categoria dos imperdíveis. Uma bíblia sobre o assunto. Por sinal, trata-se de um dos maiores pesquisadores do golpe civil-militar de 1964 e da ditadura.
Nenhum leitor patropi deveria deixar livros abandonados, maiores ou menores. Um deles é importante para todos nós, que temos, apesar das críticas, um dos melhores sistemas de saúde do mundo. O SUS talvez seja o maior programa social do país. Por isso digo que é fundamental a leitura de “SUS — Uma Biografia: Lutas e Conquistas da Sociedade Brasileira”, de Clóvis Bulcão e Luiz Antonio Santini.
Do notável historiador americano Frank D. McCann não posso deixar de ler “Irmãos de Armas — A Aliança Entre Brasil e Estados Unidos Durante a Segunda Guerra e Suas Consequências”. Ele é autor do excepcional “Soldados da Pátria — História do Exército Brasileiro: 1889-1937”.
Na minha estante de livros novos há um que me olha de modo constante e exigente: “Autocracia S. A. — Os Ditadores Que Querem Dominar o Mundo”, da admirável historiadora Anne Applebaum (autoar de um livro incontornável sobre a fome na Ucrânia nos tempos de Stálin: https://tinyurl.com/mr4xjxt9). Leio na contracapa: “Atualmente, as autocracias são governadas não por um cara malvado, mas por sofisticadas redes escoradas em estruturas financeiras cleptocráticas, um complexo de serviços de segurança — militares, paramilitares, policiais — e especialistas em tecnologia que fornecem vigilância, propaganda e desinformação”.
Os Sicilianos e Lampedusa
Por causa (me perdoe o cacófato, que adoro) de Tomasi di Lampedusa, autor de “O Leopardo”, e de Luigi Pirandello — dono de vasta obra —, coloquei na minha lista “Los Sicilianos”, de Gaetano Savatteri.
Parça de Leonardo Sciascia, Savatteri assinala, no capítulo “El rebeld y el gatopardo”: “Depois do romance de Giuseppe Tamasi di Lampedusa, resulta quase impossível entender se os sicilianos não creem e nunca acreditaram nas ideias, ou se creem nelas de uma maneira totalmente peculiar”.
Eu estava na Librería Eterna Cadencia, na Calle Honduras, em Buenos Aires, vasculhando estantes, com a coluna (rival das hérnias) em pandarecos, por ter de abaixar com frequência (consegui um banco, aí as cousas melhoraram). Vi o livro de Savaterri e li o trecho que traduzi acima. Logo pus o livro no embornal, não antes, claro, de pagá-lo. O que me convenceu a levá-lo foi, além da citação a Lampedusa, o fato de o autor ser amigo de Leonardo Sciascia, o seminal autor siciliano.
Livrarias são meus templos laicos. É onde rezo pelos bons (e até pelos maus) livros — que são deuses, quer dizer, criadores de mundos. Os ruins são anjos, nunca demos. Editoras são porta-vozes de Deus. Não devemos falar mal delas, mesmo quando não muito boas. Publicar livros é uma atividade heroica. Estou pensando em rezar, todos os dias, pela permanência da Record, Relicário, Ubu, Editora 34, Carambaia, Iluminuras, Mondru, Cânone Editorial, Kelps, Companhia das Letras, Todavia, Cosac (seu retorno é muito bem-vindo). Um pastor me disse que Deus — como os escritores do primeiro time — tem bom ouvido.
Flann O’Brien: irlandeses são filhos de Deus
Na mesma Eterna Cadencia, quando vi a capa do livro “El Consumo de Patata en Irlanda”, de Flann O’Brien, prestei atenção redobrada.
Como havia lido “O Terceiro Tira”, observei com atenção o que disse Joyce sobre o conterrâneo irlandês: “Um escritor autêntico, dotado de um verdadeiro espírito cômico”.
John Updike corrobora: “Na prosa de O’Brien há uma desenvoltura luminosa, uma graça pujante que resplandece em cada página. O’Brien possui, como Beckett, o dom da frase perfeita, a arte, que os dois aprenderam de Joyce, de infundir à linguagem corrente [normal] uma tonalidade lírica”.
Do mesmo Flann O’Brien, entra para a lista “La Gente Corriente de Irlanda”. “Reúne o melhor da coluna ‘Cruiskeen Lawn’, de Flann O’Brien, publicada no jornal ‘The Irish Times’ ao longo de quase 30 anos”.
O “Washington Post” entusiasma-se: “Muitos dos leitores americanos do norte pensam que S. J. Perelman foi o ensaísta humorístico do século [vinte], mas aprendeu tudo com Flann O’Brien, também conhecido como Myles na gCopaleen” (pseudônimo do escritor, com “g” minúsculo).
Edna O’Brien e Maeve Brennan
Me perguntaram, há pouco tempo: “Os melhores escritores da Irlanda são James Joyce e Samuel Beckett?”. De fato, são grandes. Gigantes. Mas, para mim, Edna O’Brien e Iris Murdoch são os/as maiores escritores/ras irlandeses/sas.
De Edna O’Brien figuram na minha lista “Las Sillitas Rojas” (disse Philip Roth: “A grande Edna O’Brien escreveu sua obra-prima”) e “Chica de Campo — Memórias”. Há livros de O’Brien publicados no Brasil, mas não os citados.
Dos escritores da Irlanda, devo ler os contos do brilhante William Trevor, enfeixados em “Una Relación Perfecta”, com tradução escorreita de Isabel Ferrer Marrades e edição da Salamandra. Mas, na linha de frente, estará o romance “A Jornada de Felícia”. Resenhei um de seus romances (https://tinyurl.com/2kkt7mcv).
A irlandesa Maeve Brennan fez fama, como jornalista da revista “New Yorker”, nos Estados Unidos. A prosadora de primeira linha é pouco conhecida, e não há um livro de sua lavra publicado no Brasil. Leio duas de suas obras ao mesmo tempo: “El Jardín de Rosas” (contos) e de “De Dublin a Nueva York”.
Li trechos de “Crónicas de Nueva York”. A tradutora Isabel Núñez diz no prefácio que se trata de um livro luminoso. “A reunião de todos aqueles textos” — crônicas da vida real —, publicados na coluna em “The Talk of the Town” [da “New Yorker”], ao longo de 15 anos, se converteu em um livro excepcional. Maeve Brennan é de um brilho raro como narradora. Narra a realidade como se estivesse contando ficção. E narra ficção como se estivesse relatando a realidade. O bom escritor é uma espécie de repórter da (de) ficção.
Isabel Núñez compara “Crónicas de Nueva York” a “Celebração de um Mundo”, de Clarice Lispector, e a “Dietario Volubre”, de Enrique Vilas-Matas. “Pura literatura que entra em publicações periódicas e transforma seções previsíveis em páginas assombrosas.”
A história de Maeve Brennan é tristíssima (pobre, alcoólatra, asilo), mas sua prosa e seu jornalismo inovador (na linhagem do novo jornalismo) persistem vívidos. À espera de boa (ou bom) samaritana para traduzi-la para o português da fantástica Ana Maria Gonçalves.
John Banville, Mary Lavin e Julia O’Faolain
Li quatro relatos do livro “Cuentos Irlandeses Contemporâneos”. Alguns dos autores: Liam O’Flaherty, Sean O’Faolain. Mary Lavin, Julia O’Faolain, Anne Enright, Sheila Purdy, Claire Keegan, Wendy Erskine, Louise Kennedy.
Dizem que, quando foi construir o mundo, o pedreiro celestial Deus teria dito (se não disse “na época” do gênesis, está dizendo agora, por seu intérprete terrenal): “Todo aquele que nascer na Irlanda apreciará uísque, mas, acima de tudo, será escritor”.
Blague à parte, o país de James Joyce e Yeats nos deu tanto que, às vezes, pego-me a pensar: “Será que, à noite, não seria bom rezar um terço para a Irlanda?”. E, ímpio, não posso ouvir uma reza (e música sacra) que, de cara, me apaixono.
O irlandês John Banville colocou nas livrarias o belo “La Alquimia del Tiempo — Un Memoir Dublinés”. Quem está se aventurando no mundo da escritura, e mesmo aqueles que são consagrados, aprenderá muito lendo o livro do irlandês de Wexford.
Gay Talese, Christopher Isherwood e Leila Guerriero
O americano do norte Gay Talese é, sem dúvida, um repórter mais importante do que Truman Capote, Tom Wolfe e Norman Mailer (no momento, tem um par, Leila Guerriero). Friso: repórter. Porque “Talise” não quer ser escritor na linha de Hemingway e Faulkner. Quer ser (e é), sempre, repórter.
Li quase tudo de sua autoria e agora preparo-me para a leitura de “Los Hijos”. Trata-se da história da família do jornalista, da Itália para os Estados Unidos. No fundo, é uma história mais ampla que a da família. São 765 páginas.
Necessário, portanto, rezar para Deus, Jesus e São Sebastião para que, juntos, me deem ao menos 100 anos de vida lúcida. De preferência, 120 anos. Se não for pedir muito. Espero que meu desejo não seja interpretado com blasfêmia. Que São Chicó e São João Grilo — anjos tortos — me protejam.
Leila Guerriero é a rainha do ensaio jornalístico na argentina. Como escreve bem a diaba que adora correr (eu não gosto: penso até pagar para alguém maratonear no meu lugar. Será que Deus leva uns quilos de minha pança de bagre se eu financiar alguém para correr para mim — talvez o Murakami, de quem não aprecio muito a prosa?).
A repórter ficou sabendo que Truman Capote escreveu “A Sangue Frio” (delicio-me com o título em espanhol: “A Sangre Fría”), em larga medida, na Costa Brava, na Espanha. Correu pra lá para nos contar a história. Não conseguiu muita coisa — o homem era praticamente um fantasma na região. Mas escreveu um livrinho delicioso, em formato de bolsilivro, com 133 páginas. Estou nos finalmentes. O título é “La Dificultad del Fantasma — Truman Capote en la Costa Brava”.
Diria que Leila Guerriero é a Gay Talese da Argentina. A jornalista é autora do assustador “A Chamada — Um Retrato”. A repórter conta, sem edulcorar e sem exceder, a história de Silvia Labayru. A guerrilheira tupamara foi presa e estuprada numa unidade da Marinha, a Esma. Sobreviveu e decidiu contar a história. O livro saiu no Brasil pela Editora Todavia, com tradução de Silvia Massimini Felix. Li a edição em espanhol.
Numa passagem pela Livraria Falena, na Chacarita, em Buenos Aires, fiz amizade com vários livros, notadamente com “El Cóndor y las Vacas — Diario de un Viaje por Sudamérica”, de Christopher Isherwood (anotei no meu diário que a temperatura era amena: 22 graus… Não tolero frio).
Eu nem sabia que o escritor britânico Christopher Isherwood, que leio com interesse mas não fervor, havia andado pela América do Sul.
Christopher Isherwood circulou pela América do Sul em 1947 — há quase 80 anos — por seis meses. Ele afirma que priorizou apresentar um quadro “impressionista e espontâneo”. Deixou de lado avaliações peremptórias e notou o clima de violência na região.
O inglês conta que um golpe militar fracassou porque o presidente fingiu que havia perdido o selo (carimbo?) necessário para dar caráter oficial à renúncia.
Christopher Isherwood conversou com Jorge Luis Borges — que o mesmerizou pela cultura — e Victoria Ocampo. O resto não conto por que só comecei a leitura. Adoro spoiler. Por quê? Porque, como poucos estão lendo, os leitores precisam ser “spoilerizados”.
Li três textos de “En Otros Lugares — Reportajes Literarios y Crónicas de Viajes””, de James Salter. A tradução de Aurora Echevarría é muito boa.
Um dos melhores relatos do livro de James Salter (contista — tenho a edição com todos os seus contos — e memorialista prodigioso) é “Cementeiros”. Um trecho me chamou a atenção e, por isso, o li, reli, trili e tive de traduzir: “Os mortos nos vivificam, nos revigoram, nos dão uma escala. Somos a parte desligada deles e ante suas tumbas estamos ante a nossa”. (Lembrei na hora do livro “Antologia de Rio Spoon”, de Edgar Lee Masters: https://tinyurl.com/y3y4fdry).
No cemitério de Irwin, no Colorado, afigura-se esta advertência: “Recorda amigo ao passar:/ como te vês eu me vi,/ como me vês te verás./ Prepara-te a ir atrás”. Minha tradução não é muito boa. Mas a “mensagem”, um aviso, por assim dizer, mexeu com minh’alma sexagenária.
Harold Bloom, ensaístas e poetas
Quem aprecia ensaios não pode perder “Ensayistas y profetas — El Canon del Ensayo”, de Harold Bloom. O crítico americano apresenta ensaios fabulosos sobre Montaigne, Samuel Johnson, William Hazlitt, Ralph Waldo Emerson, Thoreau, John Ruskin, Walter Pater, Aldous Huxley, Albert Camus, entre outros. Recomendo, de cara, a leitura dos textos sobre Montaigne e Emerson. São joias raras. Diamantes para o cérebro e sentidos.
“Poemas y Poetas — El Canon de la Poesía”, de Harold Bloom, é um daqueles livros maravilhosos. O crítico prefere o exame direto da obra à mera citação bibliográfica, o que é um de seus maiores méritos.
Harold Bloom analisa a poesia de John Donne, Anne Bradstreet, William Blake, Wordsworth, Coleridge, Byron, Shelley, Keats, Púchkin, Elizabeth Barrett Browning, Baudelaire, Emily Dickinson (minha deusa), Gerard Manley Hopkins, Rimbaud, Paul Valéry, Robert Frost, Wallace Stevens, William Carlos Williams, Marianne Moore, e. e. cummings, Allan Tate, Langston Hughes, Neruda, Auden, Elizabeth Bishop, Octavio Paz, John Ashbery, Derek Walcott, Seamus Heaney e Anne Carson. E, claro, vários outros.
Ainda não tenho em mãos “El Àngel Necesario — Ensayos Sobre la Realidad y la Imaginación”, de Wallace Stevens. O livro tem 144 páginas.
Wallace Stevens é, claro, mais conhecido como poeta — um dos maiores do século 20, à altura de T. S. Eliot,William Carlos Williams e Mariane Moore. Consta, porém, que é ensaísta gabaritado.
Descobri que precisava ler com urgência “A Arte do Zajal — Estado de Poética Árabe”, de Michel Sleiman, quando li o início do prefácio de F. Corriente: “O estudo da obra do genial zajalista cordovês Ibn-Quzmãn”. Minha ignorância era e é completa a respeito. Por isso o livro agiganta-se à minha frente, me obrigando a abrir suas páginas. Já comecei a grifá-lo com caneta e marca-texto (uma mania apreciável).
Poetas das mais notáveis do século 20, Mina Loy é pouco conhecida no Brasil. A Editora 34 publicou uma excelente coletânea, “Três Poetas Moderníssimas” (com tradução “dêusica” de Álvaro A. Antunes), com poemas de Mina Loy, Hope Mirrlees e Nancy Cunard (de quem comprei uma biografia que me parece das melhores). Minha lista de leitura inclui “Mina Loy”, de Mathieu Terence. Ele foi poeta, pintora e ensaísta. Sua vida é lendária.
Zbigniew Herbert, Sergio Miceli e Silviano Santiago
Sou leitor de ensaios, cada vez mais. Por isso figura na linha “Um Bárbaro no Jardim”, do grande poeta polonês Zbigniew Herbert. A tradução é de Henryk Siewierski.
A crítica literária — ensaística — de Sergio Miceli sempre me pareceu excessivamente engajada. Ainda assim, é um ensaísta brilhante. Li seus últimos livros de ensaio e agora vou ler “Lira Mensageira — Drummond e o Grupo Modernista Mineiro”, obra de maior envergadura. A obra mostra escritores mineiros como agregados do poder.
Sergio Miceli tem bons livros sobre a literatura argentina. Mas é uma pena que, para ressaltar Alfonsina Storni — poeta de méritos — e Horario Quiroga (uruguaio que morou anos na Argentina), contista do balacoescracho, às vezes “diminua” a importância de Jorge Luis Borges e a turma da revista e editora Sur (Victoria Ocampo, a mecenas e escritora, por exemplo). O sociólogo aprecia escritores que coloquem o social no primeiro plano — e não necessariamente a elaboração estética. Ainda assim, leio seus ensaios com o máximo interesse. São muito bons.
Aproveitando a deixa dos ensaios, retomo a leitura de “Presente do Acaso — Um Ensaio Biográfico Sobre Silviano Santiago”, de João Pombo Barile. Trata-se de uma biografia original, ainda que, ali e ali, meio hagiográfica.
Silviano Santiago é um dos críticos-ensaístas que mais admiro, mas é tratado como deus por Barile. O que, de certa forma, é. Mas as pessoas de carne e osso precisam de mais contradições. Para sua vida ficar mais rica. O que falta no excelente livro de Barile: audiência de críticos de Santiago.
De Silviano Santiago está na bica de leitura “Aos Sábados, pela Manhã”. São textos publicados no “Estadão”.
George Steiner, Flora Süssekind e Alexandre Eulálio
Comprei no Sebinho, de Brasília, “Linguagem e Silêncio — Ensaios Sobre a Crise da Palavra”, de George Steiner. De cara, ainda na Novacap, li o ensaio “Georg Lukács e seu pacto com o demônio”. Mui bueno. Bueno mesmo. Começa bem: “No século XX, não é fácil para um homem honesto ser crítico literário”. O conhecimento literário e filosófico do húngaro era espantoso. O que o limitava era a política, o stalinismo de seus pares. Dos críticos marxistas, é o melhor, segundo Steiner.
Não há a menor dúvida de que Flora Süssekind, de quem leio tudo — inclusive artigos publicados em jornal —, é a maior ensaísta brasileira. Por isso, tendo adquirido o livro no Sebinho (onde aproveito para almoçar um bom picadinho de carne), coloquei no topo da minha lista “A Voz e a Série”.
Tenho uma admiração por Alexandre Eulalio que, se não chega ao fanatismo, aproxima-se. Leio tudo deste perceptivo ensaísta. É o típico crítico que escreve aquilo que ainda não tínhamos pensado. Algo assim. Coloquei “Os Brilhos de Todos” na minha mesa e disse para Miguilim, o gato conhecido nas rodas como El Tigre e Chaveiro (abre as portas de nossa casa): “Prometo a São Dante que lerei este livro no primeiro semestre”.
Eudora Welty, poesia chinesa e Edward Said
Eudora Welty é uma das maiores contistas americanas do norte (há uma boa tradução brasileira, de José Roberto O’Shea, de alguns de seus contos). Cobra-me leitura “La Palabra Heredada — Mis Inicios como Escritora”. Quem se mete a escrever, com pretensões além do diletantismo, tem o dever de ler este pequeno livro de 188 páginas. Depois, ou antes, recorra aos contos.
Há um livro brigando para entrar na minha lista de leitura. Se brincar, até “morde” os demais, alguns mais avantajados. Trata-se de “Um País Mental — 150 Poemas Chinos Contemporáneos”. Presente da Candice é como ordem de Deus: não pode ser descumprida.
“La Vida de Edward Said”, de Timothy Brennan, mostra a grandeza deste intelectual que, tendo se tornado um cidadão do mundo, nunca deixou de ser palestino. Crítico refinado, também era pianista e escreveu ficção. Um ensaísta estupendo, às vezes mais criticado, dadas suas lutas pró-Palestina, do que lido.
Vargas Llosa, Larkin e William Carlos Williams
Está na minha mesa, à espera de leitura, “Vargas Llosa — Su Outra Gran Pasión: Biografía Política”, de Pedro Cateriano. Do peruano, o que me interessa mesmo é a literatura e a crítica literária, altamente perceptiva. Mas quero conhecer um pouco mais de sua outra faceta — a de político, que, tendo subestimado Alberto Fujimori, acabou sendo derrotado na disputa pela Presidência do Peru.
Não pode faltar na minha lista a poesia de Philip Larkin. “Decepciones” é um belo livro de um poeta que, na vida pessoal, parecia mais “maluco” (ou “esquisito”) do que poeta. Mas, sim, era um poetão — tão grande e bueno quanto T. S. Eliot.
Como vou ler “Paterson”, de William Carlos Williams, na bela tradução de Ricardo Rizzo, coloco na minha lista “A Muerte Feliz de William Carlos Williams”. É a história do poeta e de sua mãe, a pintora portoriquenha Raquel Helena Hoheb.
Púchkin, Raul Hilberg e Ian Gibson
Fulvio Franchi é um dos principais tradutores do russo na Argentina. Por isso, vou ler, com tradução de sua lavra, “Evguiêni Oniéguin”. A edição conta com introdução, notas e apêndice. Li as três versões brasileiras e uma portuguesa. Quero ver como Púchkin (na Argentina, escrevem, com nos Estados Unidos, Pushkin) se sai em espanhol. Não leio russo, mas percebo que a tradução, até onde li, é primorosa.
Li 146 das 249 páginas de “Memorias de un Historiador del Holocausto” (Editora Arpa, tradução de Àlex Guàrdia Berdiell), do austríaco Raul Hilberg. O prólogo do francês Florent Brayard, um dos maiores historiadores da Shoah (Shoá), é instrutivo.
A obra-prima historiográfica de Raul Hilberg foi traduzida para o português brasileiro com o título de “A Destruição dos Judeus Europeus”. Saiu pela Amarilys Editora e conta com 1664 páginas. Nas memórias o autor conta o quão difícil foi escrever e publicar este livro, tão alentado quanto imprescindível (Hannah Arendt chegou a vetá-lo numa editora na qual dava pareceres). Solamente só, com escassos recursos. Será que Deus e o espírito de Heródoto ajudaram?
“Un Carmen”, de Ian Gibson, nem está na minha mesa e estante. Mas não há como não ler as memórias deste espetacular hispanista (o mais espanhol, por certo, dos irlandeses). É biógrafo de García Lorca, Antonio Machado, Salvador Dalí e Luis Buñuel.
Gibbon, Frank D. McCann e Roberto Bolaño
Eu estava na livraria Más Puro Verso, em Montevidéu, quando, de repente, vi “Memorias de Mi Vida” (Alba Editorial), de Edward Gibbon, historiador que admiro, sobretudo por escrever bem, quer dizer, como gente. Li, na livraria, sentado numa cadeira não confortável, cerca de 10 páginas. Tive de comprar, tão bueno é. Não estava quente — 21 graus — mas senti até um certo calorzinho. Emoção de apaixonado por livros.
Tem horas que gostaria de ser tartaruga ou tubarão. Para viver mais de 100 anos. Ah, sim, tartarugas e tubarões não leem. Nada é perfeito, diria Billy Wilder pela boca de Jack Lemmon. Preciso fazer exercícios físicos e alimentar-me adequadamente (linguiças saborosas, dessas tidas como artesanais, encantam-me tanto quanto um livro de Samuel Beckett. E sou comedor inveterado de arroz e estrogonofe, que eu mesmo, quando posso, faço). Minha cardiologista Sayuri Inuzuca afirma que musculação, pilates e exercícios aeróbicos são incontornáveis. Exercícios com a boca e olhos, garante, não valem. Mas é minha especialidade. Dou até receita.
O escritor chileno Roberto Bolaño conquistou o mundo, superando vários outros escritores. Estou conhecendo sua obra aos poucos. Mas agora chegou a hora de conhecer o indivíduo. Daí a leitura de “El Hijo de Míster Playa — Una Semblanza Biográfica de Roberto Bolaño”, de Mónica Maristain.
James Holland, Richard Overy e Rebecca Donner
Em maio faço 65 anos — ou seja, daqui a 15 anos, terei 80, se vivo até lá. Então, quando pego um livro como “Normandía 1944 — El Día D y La Batalla por Francia”, de James Holland, fico a pensar: será que o bom Deus não me daria pelo menos mais 35 anos, com saúde plena (minha mãe, Zinha, morreu com Alzheimer, aos 87 anos), e assim poderia ler livros com quase mil páginas, como o do historiador britânico (tem 928 páginas).
Você acredita que paguei 414 reais pelo livro de James Holland? Nem eu acredito. Encontrei na ótima Librería Zivals (que vende CDs, vinil, DVDs e livros novos). Fica na Calle Callao com a Corrientes, em Buenos Aires.
Marcelo Franco, segundoguerrófilo, já leu quase todos os livros sobre a Segunda Mundial. Eu li cerca de 2%? Talvez não. Mas tenho mais de 400 livros sobre o assunto (inclusive sobre a participação, heroica, dos 25 mil soldados e oficiais brasileiros na luta contra o nazifascismo na Itália). Não li todos, mas li vários. Antony Beevor, Richard Evans, Ian Kershaw e Peter Longerich são autores compulsórios.
“Sangue e Ruínas — A Grande Guerra Imperial: 1931-1945”, de Richard Overy, com suas 1130 páginas, reclama leitura urgente. Mas me pego pensando: terei vida e fôlego? O bom Deus é justo: por uma causa nobre, viverei, por certo, 87 aos — ao menos. Mas insisto nos 95 ou 120 anos. Estou à espera da pílula da longevidade. Afinal, se inventaram o Cialis e o Viagra, por que não fabricarão o comprimido da juventude quase eterna?
Às vezes, a ficção apresenta grandes respostas à realidade. É o caso de “La Frecuente Oscuridad de Nuestros Días — Uma Estadounidense em la Resistencia Alemanha Contra Hitler”, da escritora canadense Rebecca Donner. A autora diz: “Esta é uma obra de não ficção”. Mas nota-se a mão da ficcionista recuperando a história real de uma mulher.
James Wood, o crítico britânico (titular do “New York Times” e professor de Yale), escreveu: “Um retrato deliciosamente rico sobre uma mulher valente. Se lê com a rapidez de um thriller, a profundidade de um romance e a urgência de um ensaio, como uma mescla muito convincente de Alan Furst e W. G. Sebald”. Um elogio e tanto para Rebecca Donner.
Stevenson, Rodolfo Walsh e José Donoso
Como Jorge Luis Borges avaliava Stevenson como imprescindível (até não concordo tanto, mas prefiro confiar no gênio argentino), ao passar pela Librería Losada, na Corrientes, em Buenos Aires, comprei logo “Robert Louis Stevenson — De Escocia a los Mares del Sur”, do jornalista e pesquisador britânico Nicholas Rankin.
Na minha lista de leitura há um livro que, volta e meia, pula para primeiro lugar, depois cai para terceiro (foi superado pela leitura de “Manuel Puig y la Mujer Araña”, de Suzanne Jill-Levine. Pena que o autor de “A Traição de Rita Hayworth” tenha vivido apenas 57 anos; merecia pelo menos 80 anos). Estou falando do livro “Rodolfo Walsh — Periodista, Escritor y Revolucionario: 1927-1977”, de Michael McCaughan, que conta a história do excepcional repórter e escritor argentino que a ditadura militar matou.
José Donoso agiganta-se na minha lista com um livro mignon (134 páginas): “O Lugar Sem Limites”. Para mim, e só para mim, o chileno é um escritor maior, até maior, do que Gabriel García Márquez e, até, Mario Vargas Llosa. Mas a máquina publicitária do colombiano e do peruano sempre foi mais poderosa, com a agente Carmen Balcells na comissão de frente do carnaval literário.
Javier Milei, Nina Berbérova e Akhmátova
O que dizer de Javier Milei, o príncipe dostoievskiano da Argentina? A socióloga Liliana de Riz é autora de um ensaio extraordinário a respeito deste, digamos assim, peronista de direita — embora ele, por certo, não admita isto. “Laboratorio Político Milei — El Primer Año en Sillón de Rivadavia” é do balacobaco. A doutora em Sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales escreveu uma introdução precisa ao político dito libertário.
Digo, sem receio de exagerar, que “Os Itálicos São Meus”, autobiografia de Nina Berbérova, é um livro incontornável àqueles que querem compreender a história — a vida — na Rússia e na União Soviética. Quem atravessar as 708 páginas certamente não irá para o Céu de Deus, mas, sem dúvida, ganhará uma vaga no Céu da razão e da sensibilidade (como católico-ateu, busco o Céu — só não sei qual. Quando estou lendo ou entro numa livraria, fico com a impressão de que estou próximo do Nirvana). A tradução é de Aurora Fornoni Bernardini, Irineu Franco Perpetuo e Moissei Mountian. Garantia de qualidade.
Élisabeth Barillé ousou e escreveu um romance curto (189 páginas) sobre o amor, tórrido?, entre uma poeta russa e um pintor e escultor italiano. “Un Amor Al Alba — Anna Ajmátova y Amedeo Modigliani” é um livro que está agarrando meu cérebro e, sim, não quero escapar do abraço similar àquele que os “biografados” deram em Paris.
Perseguida por Stálin e acólitos, Anna Akhmátova sobreviveu e, por meio de sua poesia, nos contou tudo, ou quase. Era tão genial quanto bravíssima.
O ditador-mor da União Soviética Stálin era poeta — sim, poeta — e admirava alguns escritores, como Mikhail Bulgákov e Boris Pasternak. Ele ordenou a morte de escritores e mandou prender vários.
Mas não se pode negar que vários escritores, inclusive Górki, mantinham relacionamento estreito com o “guia genial dos povos” (oh, Deus!). Este é o tema do livro “Engenheiros da Alma — Nos Passos dos Escritores de Stálin”. O livro dormita na minha estante, cobrando leitura.
Lênin era Stálin engatilhado e Stálin era Lênin atirando. O início do totalitarismo soviético começou com Vladimir e não com Ióssif, que tão somente o aprofundou e o levou às últimas consequências.
Katherine Mansfield e Frank Stanford
Nos últimos anos, leio, como se tomasse um Romanée-Conti, a poesia de Katherine Mansfield. Li a edição em espanhol — “La Criatura Terrestre y Otros Poemas”, com excelente tradução de Jimena Jiménez Real, autora de uma introdução luminosa. Versos iniciais de “Soledad”: “Ahora la Soledad me visita por las noches/em vez del Sueño, y se sienta junto a mi cama”.
Agora espero a edição brasileira, que sairá com o título “Quando Fui Pássaro: Poemas de Katherine Mansfield” (Edições Jabuticaba, organização de Katherine Funke, tradução de Katherine Funke, Laura Chagas, Lúcia Paiva e Tatiany Guedes).
Não tenho o exemplar de “Habla Terreña”, do poeta Frank Stanford. Li uma resenha no jornal argentino “Clarín” e fiquei siderado pela poesia do americano do norte (https://tinyurl.com/3mab26p8). A edição saiu pela Pre-Textos e tem 106 páginas. A tradução e notas são de Patricio Ferrari e Graciela S. Guglielmone.
Andei lendo poemas de Frank Stanford (cheguei a traduzir alguns, e logo desisti da empreitada; traduzir poesia é tarefa de Hércules e Afrodite). Buenos. Mui buenos. Merece falar na língua de Ana Cristina César, Angélica Freitas e Paulo Leminski.
Foster Wallace, Carlos Fuentes e Octavio Paz
David Foster Wallace (o da desgraça infinita, na vida) é um grande escritor? Por certo, é. Não mora na minha de lista de preferidos (Graciliano Ramos, Faulkner, Cristina Peri Rossi, Toni Morrison), mas o avalio como um personagem que escapou da literatura para a vida e, desta, de volta à literatura. Por isso, entra para minha agenda de leitura “David Foster Wallace — Todas las Historias de Amor Son Historias de Fantasmas: una Biografía”, de D. T. Max.
Minha lista quilométrica inclui “La República de Carlos Fuentes”, de Raúl Pérez López-Portilho. O escritor mexicano é esquadrinhado num volume de 421 páginas.
Ao procurar Carlos Fuentes, para relatar sua vida, López-Portilho ouviu do escritor: “Por trás de uma biografia, escuto os passos da morte”. Decidiu que falaria e depois recuou. Ele disse que não iria trabalhar para o biógrafo, pois planejava escrever suas memórias.
Miguel Ángel Flores “exige” que eu leia “Octavio Paz — Una Biografia Privilegiada”. Não é nada alentada. É curta. Edição bela. A rigor, não é o que espero de uma biografia. Mas Octavio Paz, poeta e crítico — o mais notável ensaísta mexicano —, sempre vale a pena, mesmo quando a obra, a seu respeito, é pequena. (Presente de Vilmar Rocha, o político intelectual.)
Salvador Benesdra, Anne Sexton e Alejandra Pizarnik
Por indicação do livreiro argentino Javier Alejandro Sualdo, da Librería Edipo, pretendo ler “El Traductor”, de Salvador Benesdra, escritor, jornalista e psicólogo argentino. Elvio Gandolfo diz que se trata de um dos melhores livros escritos por um argentino — “desde 1810”.
Salvador Benesdra, que só escreveu dois livros, se matou, aos 43 anos, em 1996. “El Traductor” se tornou um “livro de culto” na Argentina e noutros países latino-americanos.
Se em sonho, ao menos em sonho, Deus me informar que viverei 100 anos, ou um pouco mais, irei ler muito mais cousas, quer dizer, livros, livros, livros. Toda a obra de Cristina Peri Rossi (o romance “A Insubmissa”, traduzido no Brasil, é um espetáculo), a extraordinária poeta, prosadora e crítica literária uruguaia que, tendo escapado da ditadura de seu país, vive há décadas em Barcelona. Está passando da hora de traduzir “La Nave de los Locos”, uma de suas obras-primas.
Comprei toda a poesia de Anne Sexton (“Poesía Completa”, tradução de Ana Mata Buil, Editora Lumen) e Alejandra Pizarnik (a gigante argentina) e estou lendo aos poucos, escandalizado pela alta qualidade.
O ensaio “Alejandra Pizarnik — Un Retrato” (62 páginas), de César Aira (argentino cotado para o Nobel de Literatura), está no meu radar.
Minha lista é, aqui e ali, uma sugestão às editoras brasileiras: traduzam alguns dos livros mencionados. São buenos, digamos.
(Email: eulerdefrancabelem@gmail.com)
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