Quem acha que só de axé, funk e samba-reggae vive o Carnaval está enganado. Na Avenida Calógeras quem fez a galera fitar foram os DJs do bloco Ta Dando Onda, primeiro dedicado à música eletrônica em Mato Grosso do Sul. Por lá, nada de se esconder em casas de shows ou clubes; o som é na rua. Com uma lona colorida, a festa ocupou a frente do Monumento Maria Fumaça, neste domingo (22). Pela segunda vez, um bloco ocupou o espaço público e mostrou que o eletrônico também é Carnaval e também é cultura. Com sete atrações no line-up, o bloco reuniu DJs, produtores e curiosos que foram ver de perto o que, para muitos, ainda é novidade na cidade. Para outros, estar nesse ambiente é resistência. Entre os nomes que comandaram o som estavam Dom Roger Menegassi, conhecido como DJ Dom Menegassi, e novos talentos da cena local. No meio da pista improvisada, “Além de DJ sou produtor e fico com isso na cabeça. A importância de ter um evento como esse na nossa cidade é trazer o peso do eletrônico pra rua, pras baladas e dar oportunidade para os novos DJs. Tem muito talento aqui”, diz. Rafael Grance, de 21 anos, acompanhava tudo com brilho nos olhos. Ele não estava só curtindo, mas se reconhecendo ali. Rafael começou a acompanhar DJs há um ano. Foi o gênero musical que impediu que ele desistisse de tudo. “Eu estava desanimado, mas a música deu uma animada no astral, vontade de continuar. Acho uma grande importância o início da música eletrônica para a população, porque pra muitos aqui em Campo Grande é algo que não é bem visto. É uma forma de ter novos olhares.” O preconceito velado contra o eletrônico ainda existe. Mas na frente da Maria Fumaça, o que se via era gente dançando e sorrindo. André Macedo, corretor de imóveis e DJ resume o sentimento. “É muito bom ter esse espaço nas ruas de Campo Grande pra divulgar uma música que é extremamente legal. A gente só precisa que as pessoas venham, escutem, se divirtam e dancem. A gente vê blocos com todo tipo de música, mas é importante ter um com música eletrônica. Tem muita galera gente boa, muito som legal e também faz parte da nossa música brasileira.” Para ele, não há dúvida: “É um carnaval como todos os outros. E ano que vem vai ser melhor ainda.” Por trás da estrutura, da coragem e da caixa de som ligada no talo, está Lara, a DJ Naja, de 27 anos. Produtora cultural, ela é uma das responsáveis pelo projeto “Tecno na Rua”, movimento underground que há dois anos vem ocupando espaços públicos com música eletrônica em Mato Grosso do Sul. “Pela primeira vez no MS trazemos um bloco de música eletrônica. Essa é a segunda edição que levamos o movimento para as ruas. Isso prova que a gente tem público, mesmo com a falta de apoio. Conseguimos fazer, mesmo com pouco, um movimento lindo como esse”, afirma. Mas o projeto vai além da batida. O “Tecno na Rua” também promove workshops e artes cênicas. “Não é só música. Existe algo por trás, um significado. Ano que vem espero trazer novamente para a rua porque a galera pede muito e não tem. Fazer história nas ruas". O significado, talvez, esteja justamente nisso: ocupar. Mostrar que a rua é plural. Que a cultura não cabe em rótulos.