Entre tradição e pragmatismo: o legado de MDB, PSD, PT, PSDB, PCdoB, PP e União Brasil para Goiás
A história política de Goiás se confunde com a trajetória de partidos que, em diferentes momentos, exerceram protagonismo na condução do Estado e influenciaram o cenário nacional. Das articulações da redemocratização às disputas contemporâneas marcadas por pragmatismo e polarização ideológica, legendas como MDB (antigo PMDB), PSD — tanto o histórico, criado em 1946, quanto o refundado em 2011 —, PT, PSDB, PcdoB, União Brasil e PP deixaram marcas profundas na formação administrativa, econômica e institucional goiana.
Para compreender a dimensão desse legado, o Jornal Opção ouviu lideranças históricas dessas siglas no Estado, que relembraram personagens marcantes, obras estruturantes e momentos decisivos para Goiás.
A reportagem também conversou com o cientista político e sociólogo Pedro Célio Borges, que analisou como essas legendas contribuíram, com projetos ideológicos distintos, estratégias regionais e diferentes graus de coerência programática, para moldar não apenas a política goiana, mas também o debate democrático no Brasil.
Vilmar Rocha relembra protagonismo histórico do PSD em Goiás
Um dos fundadores do PSD em Goiás, Vilmar Rocha destaca a relevância histórica da sigla no Estado e no país, fazendo uma distinção entre o antigo partido, criado em 1946, e o novo PSD, fundado em 2011. Segundo ele, o PSD original foi uma das principais forças políticas da redemocratização pós-Estado Novo, ao lado de outras legendas nacionais. “O PSD foi um partido muito forte no Brasil”, afirma, lembrando que a sigla reuniu nomes como Juscelino Kubitschek e Ulysses Guimarães.
Vilmar explica que, embora o partido atual tenha semelhanças com o antigo, trata-se de “um outro momento histórico, uma nova realidade política”. Ele ressalta que tanto no passado quanto no presente o PSD se caracteriza como uma legenda de centro. “Ele não era um partido de esquerda nem da UDN. Ele já era um partido de centro”, pontua. Hoje, segundo ele, a sigla mantém essa linha, “com uma pegada de centro-direita”, defendendo equilíbrio e moderação.
Em Goiás, o protagonismo do antigo PSD foi expressivo entre 1946 e 1965. De acordo com Vilmar Rocha, nesse período, a legenda governou o Estado por 16 dos 20 anos, com exceção da gestão de Coimbra Bueno. Ele cita nomes como Pedro Ludovico Teixeira, Mauro Borges e José Feliciano Ferreira como exemplos de governadores ligados ao partido. “Pode-se dizer que foi o partido que mais governou Goiás, mas é preciso fazer a observação: o PSD do passado, que não é esse PSD agora”, ressalva.
Entre os principais legados históricos da sigla, Vilmar destaca a construção de duas importantes cidades para o Centro-Oeste. “A construção de Brasília e Goiânia. Acabou, não precisa falar mais nada”, afirma, ao associar o desenvolvimento regional às gestões do partido. Ele lembra que Juscelino, responsável pela fundação de Brasília, era do PSD, assim como Pedro Ludovico, ligado à construção de Goiânia. Para ele, tratava-se de um partido “progressista e modernizador”, especialmente na área de infraestrutura.
No governo Mauro Borges, segundo Vilmar, Goiás passou por um processo de planejamento e modernização administrativa. Ele cita a criação do chamado Plano Mauro Borges e a estruturação de empresas estatais estratégicas, como o Banco do Estado de Goiás (BEG), a Saneago e a Companhia Energética de Goiás (Celg), além da ampliação da infraestrutura rodoviária e energética. “Era um partido progressista nesse sentido. Trouxe progresso para Goiás e para o Brasil”, reforça.
Sobre o novo PSD, fundado em 2011, Vilmar Rocha lembra que participou da criação da legenda em nível nacional e presidiu o diretório goiano por 12 anos. Ele afirma que o partido sempre manteve identidade própria em Goiás e apoiou gestões que considera positivas, como as de Marconi Perillo. Com a filiação recente do governador Ronaldo Caiado, ele avalia que a sigla pode ganhar ainda mais protagonismo, mas pondera que é cedo para medir esse impacto. “Ele ainda tem muito a contribuir para o partido”, diz.
Para os próximos anos, Vilmar defende que o PSD mantenha a “defesa da democracia e do Estado Democrático de Direito” no cenário nacional e continue o processo de modernização em Goiás. Em relação às eleições, a meta é fortalecer a bancada, ampliar o número de deputados estaduais e federais e disputar espaço na chapa majoritária, com pretensão de indicar candidato ao Senado ou à vice-governador. “Essa é a projeção do partido”, conclui.
Legado tucano e transformação estrutural em Goiás
Afrêni Gonçalves, um dos integrantes mais antigos do PSDB em Goiás, destaca que o partido mantém, desde sua criação, a bandeira da social-democracia. Segundo ele, a sigla tem se renovado a cada eleição, mas sem renunciar a seus princípios históricos. “O PSDB é trabalha com respeito à Lei de Responsabilidade Fiscal e dá valor ao equilíbrio fiscal junto com a justiça social”, afirma.
Ao relembrar o início da gestão tucana no Estado, Afrêni ressalta a transformação promovida a partir de 1999, com a posse de Marconi Perillo. Ele demonstra preocupação com o fato de que parte da população mais jovem não conheceu a realidade anterior. “Quem tem menos de 40 anos, não conheceu o estado de Goiás daquela época. Era um estado considerado periférico. A partir dali, Goiás virou referência para o país”, diz. Para ele, muitos avanços estruturais foram implantados nesse período e acabaram incorporados ao cotidiano da população.
Na área da Educação, Afrêni cita a criação da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e a expansão do ensino superior para o interior, além de programas como a Bolsa Universitária. Ele também destaca a evolução dos indicadores educacionais. “Quando ele assumiu, apenas 23% dos professores da rede estadual tinham curso superior. Ele deixou com mais de 90%”, pontua. Segundo Afrêni, o governo também elevou o desempenho do Estado no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), colocando Goiás entre os primeiros colocados do país.
Na Saúde, o ex-deputado relembra a reabertura do Hospital Geral de Goiânia (HGG), a criação do Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) e a implantação de hospitais regionais e unidades de atendimento no interior. Já na área de Saneamento e Infraestrutura, ele cita a ampliação do tratamento de esgoto e o fim da escassez de água na capital com a construção da Barragem do João Leite. “Hoje é praticamente universalizada a água tratada. Quem não tem é porque não quer. Isso foi plantado lá atrás”, afirma.
Afrêni também menciona avanços na Segurança Pública, com realização de concursos, modernização de equipamentos e valorização das forças policiais. Ele lembra que, no passado, policiais recebiam abaixo do salário mínimo e utilizavam viaturas sucateadas. “Foi feito concurso, treinamento, desenvolvida a área de inteligência. A segurança que hoje as pessoas sentem foi plantada lá atrás”, ressalta, reconhecendo que cada governo tem sua parcela de contribuição.
Com trajetória política iniciada no BEG, onde ingressou por concurso em 1972, Afrêni foi diretor eleito pelos funcionários e presidente da associação dos servidores antes de se eleger deputado estadual em 1998, sendo reeleito em 2002. Mesmo após deixar o mandato, afirma ter permanecido fiel ao partido, apesar de convites para mudar de legenda. “Não gosto de ficar mudando de partido. Quero manter minha linha no PSDB”, declara. Hoje, ele afirma que não pretende disputar novos cargos, mas continuar apoiando o projeto político que, segundo ele, “transformou o Estado de Goiás de periférico em referência nacional”.
Delegado Waldir destaca força do União Brasil em Goiás
O presidente estadual do União Brasil em Goiás, delegado Waldir Soares, destacou a trajetória e a relevância da sigla no cenário político goiano. Ele lembrou que o partido tem origem no antigo PFL, que posteriormente se tornou DEM, até chegar à atual formação como União Brasil, após a fusão que consolidou a nova legenda em âmbito nacional.
“O PFL foi comandado lá atrás pelo presidente Luciano Bivar, um partido de centro-direita. Depois veio o DEM, que é oriundo do antigo PFL, e nós fizemos a junção desses partidos, formando o União Brasil”, explicou. Segundo ele, a sigla mantém protagonismo tanto em Goiás quanto no cenário nacional.
Waldir ressaltou que, nacionalmente, o partido é uma das maiores forças políticas do país. “Hoje é o terceiro maior partido do Brasil. Se juntar a federação, passa a ser o segundo maior”, afirmou. Ele se referiu à federação União Progressistas, formada pelo União Brasil e o PP, ampliando a representatividade no Congresso Nacional.
Em Goiás, o delegado assumiu recentemente o comando estadual da legenda, após a saída do governador Ronaldo Caiado, que se filiou ao PSD. “Em Goiás, hoje, o União Brasil é comandado por mim. Era comandado pelo governador Ronaldo Caiado, que foi para o PSD. Essa mudança é transitória, até que seja montada a nova executiva, que deve ter Gracinha Caiado à frente”, pontuou.
Sobre a relevância do partido no Estado, Waldir afirmou que a sigla tem papel central na política goiana dos últimos anos. “É um partido de extrema relevância, que ditou nos últimos anos o comando da política no estado de Goiás. Hoje é parceiro do nosso próximo governador, Daniel Villela (MDB), e é, sem dúvida, o partido com a maior quantidade de prefeitos no Estado”, declarou.
Ele também destacou o legado administrativo construído sob a gestão de Caiado. “Nós fizemos a transformação do Estado. Goiás hoje é um dos estados mais competitivos do país, tem um dos melhores sistemas de segurança pública, se destaca na saúde, na educação, sempre com uma das melhores notas no Ideb, além de ser um dos estados mais digitais do Brasil”, afirmou.
Segundo Waldir, a alta aprovação do governador reforça esse resultado. “Tínhamos o governador mais bem avaliado do país, com 88% de aprovação. Essa é a contribuição do União Brasil para Goiás.”
Adriano do Baldy destaca força e legado do PP em Goiás
O deputado federal Adriano do Baldy destacou a relevância do Partido Progressistas (PP) para Goiás e ressaltou a trajetória histórica da sigla no Estado. Segundo ele, o partido tem raízes antigas na política brasileira, tendo passado por mudanças de nomenclatura ao longo dos anos. “O partido trocou de nome por várias vezes. O PP é a antiga Arena. Naquela época existia Arena e o MDB”, afirmou.
Adriano explicou que se filiou ao partido em 2018, quando deixou a presidência do PTN em Goiás. “Eu cheguei ao partido em 2018. Quando surgiu a possibilidade da minha candidatura, o Alexandre Baldy tinha assumido o Progressistas aqui no Estado. Nós filiamos no início daquele ano e começamos a conhecer mais de perto a estrutura do partido em Goiás”, relatou.
De acordo com o parlamentar, o PP tem histórico de protagonismo e já contou com lideranças de expressão na política goiana, como Roberto Balestra, Wilder Morais, Alcides Rodrigues, Paulo Roberto Cunha, Alexandre Baldy, dentre outros. “O partido produziu muitas lideranças políticas de relevância para o nosso Estado, no que tange à boa política”, ressaltou.
Atualmente, segundo Adriano do Baldy, o PP mantém forte presença municipal. “Hoje nós estamos com 28 prefeitos, 20 vice-prefeitos, 320 vereadores e mais de 180 diretórios ativos no Estado. Elegemos dois deputados federais, eu e o Zé Nelto, além de três deputados estaduais”, pontuou. Ele destacou ainda que, com a federação entre o PP e o União Brasil, a bancada na Câmara Federal passou a ter cerca de 110 deputados. “Com a homologação da federação União Progressistas, nós temos uma das maiores bancadas da Câmara”, frisou.
Ao falar sobre o legado do partido, Adriano citou a atuação do ex-ministro das Cidades Alexandre Baldy, que ocupou o cargo no governo Michel Temer. “Foi um dos ministérios mais importantes do governo federal. Trouxe recursos para o BRT de Goiânia, para obras de captação de água em Aparecida, ajudou a resolver o problema de abastecimento em Anápolis e destravou programas do Minha Casa, Minha Vida que estavam parados”, afirmou.
Adriano também destacou o trabalho de Alexandre à frente da Agência Goiana de Habitação (Agehab). “Ele botou a Agehab para trabalhar diuturnamente, com uma equipe enxuta, mas que entrega resultados. Programas como Aluguel Social, Pra Ter Onde Morar, regularização fundiária e construção de conselhos tutelares são exemplos disso”, disse. Para o deputado, a atuação do Progressistas em áreas como saneamento e habitação representa uma das principais contribuições da legenda ao desenvolvimento de Goiás.
MDB e o legado de desenvolvimento em Goiás, segundo Mauro Miranda
O ex-senador Mauro Miranda relembra que sua trajetória política começou ainda na juventude, quando passou a se interessar pelo processo democrático no Brasil, especialmente no período que antecedeu a redemocratização. Ele conta que participou do movimento estudantil e que seu envolvimento mais direto com a política ganhou força a partir da eleição de Jânio Quadros, quando ainda era adolescente. “Amadurecendo, eu já estava envolvido no desejo de nós termos uma democracia no país”, afirma.
Mauro destaca que sua aproximação com o MDB ocorreu no início da década de 1980, quando foi convidado por Iris Rezende para integrar sua equipe no governo de Goiás. Segundo ele, o convite foi resultado de sua atuação técnica na área de infraestrutura e de sua formação acadêmica, que incluiu bolsas de estudo nos Estados Unidos e na França. “O Iris me escolheu e logo depositou uma confiança imensa em mim”, relembra. A partir daí, filiou-se ao então PMDB e consolidou sua trajetória política, sendo eleito duas vezes deputado federal e, posteriormente, senador da República.
Ao falar sobre a relevância do MDB para Goiás, Mauro Miranda aponta como principal legado a atuação do partido no processo de redemocratização. Para ele, a coragem de Iris Rezende em liderar movimentos e comícios durante o período da ditadura foi decisiva.
Eu acho que o maior legado do Iris é a redemocratização do Brasil. Foi um marco muito decisivo para o país, afirma.
Ele ressalta que o MDB governou o Estado nos mandatos de Iris, período que, segundo ele, promoveu profundas transformações estruturais.
Na área de infraestrutura, Mauro enfatiza que o governo do MDB foi responsável por ampliar significativamente a malha rodoviária asfaltada e construir dezenas de pontes, integrando municípios que antes eram isolados. “Nós fizemos a grande maioria das ligações rodoviárias que precisavam ser feitas”, diz. Ele cita ainda a duplicação da Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada como um avanço estratégico na área energética, além da expansão da rede de eletrificação em praticamente todas as cidades goianas.
Outro legado destacado por Mauro é a criação e preservação de áreas ambientais, como o Parque Altamiro de Moura Pacheco, adquirido durante o governo de Iris. “É um marco formidável para mim”, afirma. Ele também menciona políticas de incentivo à industrialização, que contribuíram para atrair grandes empresas para o Estado, como a instalação da Perdigão em Rio Verde, fato que, segundo ele, transformou o panorama econômico da região Sudoeste de Goiás.
Na capital, Mauro lembra que o MDB também deixou marcas importantes na Prefeitura de Goiânia, especialmente nas áreas de habitação e infraestrutura urbana. Ele ressalta ainda a inclusão do direito à moradia na Constituição como uma conquista histórica. “Colocar na Constituição que todo cidadão tem direito à sua moradia foi muito importante”, pontua. Para ele, o partido construiu um legado sólido em infraestrutura, meio ambiente, energia e desenvolvimento econômico, consolidando-se como uma das principais forças políticas da história de Goiás.
Luiz Cesar Bueno destaca legado do PT em Goiás
Luiz Cesar Bueno, um dos fundadores do PT em Goiás, relembra que o partido surgiu em meio a um cenário político dominado por oligarquias rurais e grandes famílias tradicionais do Estado. Segundo ele, nas décadas de 1970 e 1980, a política goiana era marcada pela concentração de poder, enquanto universidades, movimentos culturais, sindicatos e associações civis viviam intensa efervescência. “O Partido dos Trabalhadores surgiu num momento em que havia necessidade de participação nas estruturas de poder que fazem as decisões mais importantes do país”, afirma.
De acordo com Luiz Cesar Bueno, o PT nasceu inicialmente com forte presença estudantil e intelectual, consolidando-se depois junto aos movimentos sindicais, especialmente de trabalhadores rurais e professores. Ele destaca que a eleição de 1985, disputada voto a voto por Darci Accorsi, marcou um divisor de águas. “A interrupção da recontagem tirou a eleição do PT, mas mostrou que o partido era bom de voto”, diz. Em 1992, com a vitória de Darci, o partido consolidou sua força, implementando uma gestão que, segundo pesquisas da época, colocou Goiânia entre as melhores administrações municipais do país.
O legado administrativo é um dos pontos mais enfatizados por Luiz Cesar Bueno. Ele cita obras estruturantes como a Avenida Perimetral Norte, a Marginal Botafogo e a reorganização do traçado viário da capital, além da criação e ampliação de parques como Macambira Anicuns, Vaca Brava, Cascavel e Areião. “O conjunto dos programas sociais com a infraestrutura urbana marcou a tradição do PT em Goiás, sobretudo em Goiânia”, destaca. Ele também ressalta a prioridade dada à educação nas gestões de Pedro Wilson e as grandes obras realizadas nos governos de Paulo Garcia.
Ao avaliar a trajetória eleitoral, Luiz Cesar Bueno lembra que o PT governou Goiânia em quatro gestões, com três prefeitos, além de ter administrado Anápolis por duas vezes. Para ele, a dificuldade histórica do partido em ampliar sua força no interior do Estado está relacionada ao perfil urbano da legenda. “Nós não conseguimos viabilizar um discurso para o setor agrícola e da pecuária”, reconhece. No entanto, acredita que esse cenário pode mudar com os resultados do governo federal. “Com o governo Lula, essa situação tende a mudar”, afirma, citando o aumento dos recursos do Plano Safra, a ampliação do Proagro, o fortalecimento do Pronaf e a abertura de mercados internacionais.
Luiz Cesar Bueno também aponta grandes obras federais em Goiás como fatores que podem fortalecer o partido, entre elas a duplicação da BR-153, intervenções nas BRs 060 e 040, além de investimentos como o Hospital das Clínicas, o Aeroporto de Goiânia e a Ferrovia Norte-Sul. “A gente não está conseguindo comunicar esse volume grande de realizações. Precisamos capitalizar politicamente esses resultados”, avalia.
Com longa trajetória política, ele foi vereador de Goiânia por dois mandatos e deputado estadual por quatro, além de presidir o PT em Goiás por três vezes. Participou da fundação nacional do partido, em 1980, em Brasília, e recorda com emoção aquele momento histórico.
A consolidação do Estado Democrático de Direito no Brasil deve muito ao Partido dos Trabalhadores, porque foi o partido que fez o contraditório e apresentou um viés de políticas públicas diferente da visão ortodoxa da direita.
PCdoB aposta em retomada política em Goiás, diz Aldo Arantes
O ex-deputado federal Aldo Arantes, um dos integrantes mais antigos do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Goiás, destacou a importância histórica e política da sigla tanto no Estado quanto no cenário nacional. Segundo ele, o partido mantém como eixo central de atuação a defesa da justiça social e dos trabalhadores.
“O PCdoB é um partido comunista, comprometido com a justiça social, com o respeito aos trabalhadores e com a luta por direitos. Sempre teve um papel importante para o povo goiano”, afirmou. Arantes ponderou que o desempenho eleitoral da legenda varia conforme o cenário político. “Em conjunturas mais favoráveis às forças progressistas, os partidos progressistas se fortalecem. Quando há avanço das forças conservadoras, isso impacta negativamente.”
Apesar de atualmente não contar com representantes na Assembleia Legislativa, na Câmara de Goiânia ou no Congresso Nacional, Arantes avalia que o partido vive um momento de reorganização. “Estamos em um processo de retomada do partido em Goiás. Vamos lançar candidato a deputado federal e vários candidatos a deputado estadual. Estamos convencidos de que temos condições de eleger e reposicionar o PCdoB na política goiana”, disse.
O dirigente, que já presidiu o partido e hoje integra a direção nacional da sigla, além de coordenar o comitê estadual em Goiás, ressaltou que a atuação do PCdoB vai além das disputas eleitorais.
O partido não vive só de eleições. Mira o fortalecimento do movimento social e procura estar presente nas diversas frentes do movimento social do estado, destacou.
Ao citar legados históricos da legenda em Goiás, Arantes mencionou a participação do partido na mobilização pelas Diretas Já e na articulação de congressos e movimentos democráticos no estado. “O PCdoB teve papel importante na luta pelas Diretas Já e na organização de grandes mobilizações políticas em Goiás”, afirmou. Ele também citou a atuação da sigla em pautas como reforma agrária e habitação popular.
Na trajetória pessoal, Aldo Arantes foi vereador por Goiânia e exerceu quatro mandatos como deputado federal, tendo participado da Assembleia Constituinte. “Fui deputado federal por quatro mandatos e vereador em Goiânia. Sempre atuei na defesa dos trabalhadores e da democracia”, concluiu.
Radiografia dos partidos em Goiás e no Brasil
O sociólogo e cientista político, Pedro Célio Borges, professor aposentado da Universidade Federal de Goiás e pesquisador sênior do Instituto Ágora-Pesquisas, traça um panorama crítico sobre o perfil e a trajetória de seis partidos com atuação relevante no cenário nacional e goiano: PSD, MDB, PT, PCdoB, União Brasil e PSDB. Para ele, as legendas revelam transformações profundas, muitas vezes marcadas por pragmatismo, disputas regionais e perda de identidade histórica.
Em relação ao Partido Progressista (PP), Pedro Célio informa que ainda não é possível fazer uma análise sobre a sigla em Goiás.
PSD: pragmatismo e força regional
Ao analisar o Partido Social Democrático (PSD), Pedro Célio destaca que a sigla atual não tem relação com o antigo partido criado no pós-Estado Novo. “No máximo há coincidência de sigla. São partidos completamente distintos”, afirma.
Segundo ele, o PSD contemporâneo nasce de dissidências regionais e se estrutura como “uma federação de oligarquias estaduais, sem unidade ideológica ou projeto nacional definido”. Em Goiás, ganhou projeção por abrigar o governador Ronaldo Caiado.
O traço de comportamento político do PSD é o pragmatismo. Eles jogam em qualquer posição, podem ser aliados da direita ou da esquerda, conforme a conveniência, resume.
Para o pesquisador, trata-se de um partido típico do Centrão, organizado a partir de mandatos parlamentares e sustentado por interesses das elites econômicas.
MDB: da resistência à ditadura à fragilidade atual
Sobre o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Pedro Célio distingue claramente o partido histórico do atual. O antigo MDB, criado durante o bipartidarismo, foi “a principal voz de oposição à ditadura militar, mesmo sob forte repressão”.
Ele relembra que lideranças como Iris Rezende e Maguito Vilela consolidaram a hegemonia do então PMDB em Goiás, especialmente após a redemocratização. No entanto, o partido perdeu força ao longo dos anos.
O MDB de hoje é uma sombra pálida do que foi no passado. Não tem nada a ver, em termos de programa ou identidade, com aquele MDB da resistência, avalia.
Para ele, a legenda tornou-se semelhante a outros partidos do Centrão e depende politicamente do apoio de Caiado para manter competitividade eleitoral no Estado.
PT: identidade ideológica e limites em Goiás
O Partido dos Trabalhadores (PT), segundo o sociólogo, possui origem distinta das demais siglas analisadas. Fundado em 1980, surgiu da convergência entre o novo sindicalismo do ABC paulista, militantes da esquerda que retornaram do exílio e setores progressistas da Igreja Católica ligados à Teologia da Libertação.
“O PT nasce denunciando a velha política e defendendo maior participação popular”, explica. Com o tempo, tornou-se “o maior partido de esquerda da América Latina”, especialmente após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002.
Pedro Célio observa, porém, que o partido enfrentou “crise de gigantismo”, com dissidências que deram origem a outras legendas de esquerda. Em Goiás, o desempenho sempre foi limitado. “O estado tem perfil mais conservador. O PT nunca conseguiu eleger governador ou senador aqui e depende de se manter em oposição às oligarquias regionais para preservar seu espaço”, afirma.
PCdoB: resistência ideológica e aliança com o PT
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) mantém, na avaliação do pesquisador, coerência ideológica à esquerda, mas enfrenta dificuldades estruturais.
“O partido nunca abriu mão de seus símbolos históricos, como a foice e o martelo, o que dificulta seu crescimento, sobretudo no interior”, analisa. Em Goiás, teve expressão com a liderança de Aldo Arantes, mas hoje luta para sobreviver.
Pedro Célio destaca que a legenda tem atuado como aliada estratégica do PT e assumido protagonismo no discurso da “frente democrática e da luta antifascista”, especialmente nos embates contra Jair Bolsonaro (PL) e a extrema-direita.
União Brasil: herdeiro da direita tradicional
O União Brasil é visto como continuidade direta da antiga Arena, passando por PDS, PFL e DEM. “É a linhagem clássica da direita brasileira”, resume.
Para Pedro Célio, a legenda assumiu explicitamente sua identidade conservadora nos últimos anos. “Antes havia certo constrangimento em se declarar de direita. Hoje isso é dito com orgulho”, afirma, associando esse movimento ao fortalecimento da direita após 2013 e à ascensão de Bolsonaro.
O partido, segundo ele, oscila entre alinhamento total à direita ideológica e atuação pragmática junto ao Centrão, mantendo forte influência em estados como Goiás.
PSDB: ascensão e declínio
Já o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) surgiu de dissidência do PMDB durante a Constituinte de 1988, com identidade social-democrata e liderança nacional de nomes como Fernando Henrique Cardoso (FHC).
“O Plano Real foi um feito histórico que consolidou o PSDB no poder”, afirma Pedro Célio, lembrando as duas eleições presidenciais de FHC e, em Goiás, a vitória de Marconi Perillo sobre Iris Rezende em 1998, encerrando um ciclo político do PMDB no Estado.
Com o tempo, porém, o partido perdeu protagonismo.
O PSDB hoje é um partido do passado. Vejo com muita dificuldade sua capacidade de se reerguer, avalia.
Para ele, a polarização entre direita e esquerda tende a reduzir ainda mais o espaço de uma legenda identificada com o centro.
Na leitura de Pedro Célio Borges, o cenário partidário brasileiro revela uma combinação de pragmatismo, disputas regionais e crises de identidade, com poucas legendas mantendo coerência ideológica ao longo do tempo.
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