Thiago Regalado da Carvalheira, de 35 anos, foi identificado como o homem que arremessou o cadeirante, ex-paratleta Maykon Douglas de Jesus Almiron, do 4º andar de um edifício no Bairro de Boa Viagem, em Recife. De sobrenome influente na região, o rapaz de classe média alta e "família estruturada", não tinha histórico criminal. A Polícia Civil de Pernambuco já concluiu o inquérito, que foi encaminhado ao Ministério Público. Para o delegado Rodrigo Bello, não há outra explicação a não ser que, de fato, Thiago surtou. O crime ocorreu no dia 13 de fevereiro, mas tomou repercussão nos últimos dias. Segundo o delegado, Thiago estava acompanhado de uma amiga e passeavam para tomar água de coco, quando conheceram Maykon, que vendia balas no calçadão de Boa Viagem. "Essa pessoa [Thiago] ficou comovida com a história de Maykon, com a situação da deficiência, conversaram um pouco e essa pessoa convidou Maykon para subir no apartamento dele. Até aí, tudo normal", descreve o delegado em vídeo que publicou nas redes sociais. O ex-paratleta aceitou e foi até o apartamento. “Passaram um tempo conversando, conforme testemunhas que estavam no apartamento antes da tragédia. Em determinado momento, essa pessoa teve um surto; não existe outra explicação. Começou a mudar o comportamento, tentou agredir a amiga dele, que conseguiu fugir junto com uma funcionária, mas, infelizmente, Maykon, que era cadeirante, ficou no apartamento e não tinha como correr”, conta. Thiago arremessou vários objetos antes de também lançar o cadeirante do 4º andar do prédio. "Foi arremessado junto com a cadeira de rodas e morreu no local. Essa pessoa depois de algum tempo resolveu pular também. A mãe chegou antes, viu ele lançando alguns objetos, mas quando ela subiu, o filho pulou também e veio a falecer". Inicialmente, a polícia foi chamada para atender ocorrência entre pai e filho, mas ao chegar no local percebeu que não havia relação familiar. Após ouvir testemunhas e, em menos de duas semanas, a polícia concluiu o inquérito, que foi encaminhado ao Ministério Público. "Não há outra explicação a não ser o surto, não encontramos drogas no apartamento e não há indícios de que ele estava sob efeito de algum entorpecente", disse o delegado. Pouco foi falado sobre Thiago, autor da tragédia, mas para o delegado, a família dele também é uma vítima. A reportagem do Campo Grande News apurou que ele tem sobrenome influente em Pernambuco, mas não há informações qual o vínculo de Thiago Carvalheira com família tradicional. Rapaz de classe média alta, ele compartilhava pouco da rotina nas redes sociais, mais quadros abstratos, natureza e viagens. A última publicação foi exatamente no dia da tragédia, 13 de fevereiro, quando ele postou um cigarro aceso, sem legenda. Já no dia 8 do mesmo mês, postou vídeo fazendo exercícios em casa. As postagens têm gerado comentários de todos os cantos, por conta da tragédia. Maykon Douglas - Sem encontrar familiares, o delegado chegou a postar um vídeo no Instagram sobre a tragédia para chegar a um maior número de pessoas. Mas, sem sucesso. O rapaz acabou sendo enterrado como indigente. A família, que vive em Mato Grosso do Sul, só foi informada na quinta-feira, 26 de fevereiro. A mãe, a cozinheira Marta Almorin, 48 anos, moradora de Campo Grande, diz que não consegue aceitar a forma como o caso foi conduzido. “Disseram que ele faleceu no dia 13. Mas a gente só ficou sabendo ontem. Enterraram meu filho como indigente, como se ele não tivesse família”, afirmou. Ela reforça que o filho não era morador de rua. “Meu filho não é indigente. Ele tem família. Podia ter tido um velório digno. Eu não me conformo. Vou procurar meus direitos". Maykon Douglas tinha 30 anos. Ele foi campeão em bocha adaptada nos Jogos Parapan-Americanos de Jovens, em 2013, em Buenos Aires. Ele representou o Mato Grosso do Sul em competições nacionais e internacionais, também fazendo parte da seleção brasileira de bocha nos Jogos Parasul-Americanos de Santiago, no Chile, em 2014. A ex-treinadora Marli Cassoli acompanhou parte da trajetória dele no esporte e manteve contato mesmo após o afastamento das competições. “Desde a pandemia, ele resolveu ir embora de Campo Grande e passou a viver de tempos em tempos em cidades diferentes”, contou. Segundo ela, Maykon morava sozinho, geralmente em hotéis, e pagava uma pessoa para auxiliá-lo nas atividades diárias. “Tentei fazê-lo mudar de ideia, mas ele tinha uma personalidade muito forte, opinião muito formada. Não conseguimos convencê-lo”. Ele passou por São Paulo, Santa Catarina, onde ficou em Blumenau (SC), e depois seguiu para o Nordeste. Em Maceió (AL), ganhou visibilidade nas redes sociais quando a cadeira motorizada quebrou e uma campanha online garantiu a doação de um novo equipamento. Depois, foi para Recife. “Em dezembro me ligou. Em janeiro ligou de novo. No dia 18 de janeiro me mandou fotos antigas nossas e brincou com o cabelo liso. Depois desse dia, não falei mais com ele”, disse Marli. A família do ex-paratleta está com uma vaquinha aberta para custear a viagem até Recife (PE), onde ele foi enterrado como indigente, apesar de portar documento de identidade. A intenção é regularizar a documentação e alterar o registro de sepultamento para que conste oficialmente o nome do rapaz. Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.